Foto: Felipe Rau/Arquivo/Estadão
João Doria 15 de janeiro de 2020 | 06:52

Doria faz agendas casadas e dá carona a aliados em aeronaves pagas pelo governo

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O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fez 435 deslocamentos em aeronaves que pertencem ao estado ou foram locadas com recursos públicos em 2019. De cada três dias com agendas fora do Palácio dos Bandeirantes, em dois elas foram feitas em aviões e helicópteros.

Dentre as viagens feitas pelo tucano e pela primeira-dama, Bia Doria, em aeronaves custeadas pelos cofres estaduais há agendas casadas com eventos particulares, partidários e também do Lide, grupo privado que fundou e do qual se afastou na campanha de 2016. Na lista de passageiros, aliados e amigos sem relação direta com a atuação no Executivo paulista.

Os dados sobre os voos de Doria foram obtidos pela Folha, via LAI (Lei de Acesso à Informação), na Casa Militar, órgão estadual responsável pela segurança direta do governador e da primeira-dama.

O tucano afirma que razões de segurança —e ações governamentais contra a facção criminosa PCC— justificam deslocamentos aéreos dele e da família e destaca não haver ilegalidades.

As viagens têm embasamento em decreto estadual, pelo qual elas devem ser feitas “com ênfase na economicidade e na segurança”.

A ausência de uma regulamentação mais detalhada para a utilização das aeronaves, no entanto, dificulta ações de controle. Ex-governadores como Geraldo Alckmin (PSDB) e Márcio França (PSB) já enfrentaram críticas por recorrer a voos bancados pelo estado em compromissos considerados privados.

O Palácio dos Bandeirantes não revelou os gastos totais com as aeronaves para esses deslocamentos, mas, a partir de contratos de locação, a estimativa é que tenha sido gasto em torno de R$ 1,34 milhão com aluguel de helicópteros e aeronaves para voos de Doria e Bia em 2019.

No dia 2 de dezembro, por exemplo, Doria gastou R$ 95 mil em voos locados para inaugurar um presídio em Caiuá (SP).

A primeira-dama, que também é presidente do Fundo Social de São Paulo (braço do governo para assistência social), tem direito de usar o transporte aéreo —foram 22 trajetos para atendê-la, sem contar os casos em que embarcou como acompanhante do marido.

Em dois dos traslados feitos em seu nome, Bia levou junto uma irmã. As duas pegaram helicóptero do governo para chegar ao aeroporto e tomar voo de carreira para visitar parentes.

Almejando uma candidatura à Presidência em 2022, ​Doria adotou um ritmo intenso de aparições em solo paulista e viajou a Brasília e a outros estados em seu primeiro ano à frente do Bandeirantes. A relação obtida pela Folha não abrange suas sete missões internacionais, feitas em voos de carreira.

O tucano tem à sua disposição um helicóptero do estado reservado para transporte do governador, além dos cerca de 30 helicópteros Águia da Polícia Militar e de um avião com capacidade para nove pessoas.

O governo ainda fretou aeronaves para a locomoção de Doria, que na maioria das vezes teve a companhia de secretários estaduais e assessores, cujo transporte aéreo está previsto na regulamentação estadual.

Ao longo de 2019, a agenda pública do governador exibiu compromissos dele no território brasileiro em 264 dias. Desse total, em 70 dias ele teve atividades só dentro do palácio. Dos 194 dias em que saiu, Doria utilizou aeronaves para chegar até os destinos em 63,4% das vezes.

Em 31 de maio, por exemplo, sua agenda registrou a ida a Brasília para a convenção nacional do PSDB. Para chegar ao aeroporto de Congonhas (zona sul), onde embarcou em jato locado, ele utilizou um Águia. No retorno, outro helicóptero da PM levou Doria do terminal para casa.

Para buscar o tucano e a primeira-dama em casa e levá-los de volta, os helicópteros usam como base um heliponto do edifício onde fica a sede do Lide, na avenida Faria Lima. Doria e Bia residem a cerca de 800 m do prédio, na rua Itália, nos Jardins, zona oeste de SP.

Depois de discursar no encontro de seu partido, o governador teve almoço em Brasília com o ministro das Relações Exteriores do governo Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo, e duas entrevistas a jornalistas.

O trecho de ida e volta até a capital federal custou, segundo valores de mercado, R$ 49.200. A tabela enviada pelo governo aponta que Doria acomodou no voo um colega de sigla, o deputado federal Carlos Sampaio (SP), mas o parlamentar nega essa informação.

Em 22 de abril, o ex-deputado federal Bruno Araújo —que no mês seguinte seria eleito presidente nacional do PSDB— acompanhou o governador em outra viagem de São Paulo a Brasília. O aluguel da aeronave foi estimado em R$ 51.900.

A lista de tucanos entre os passageiros dos voos inclui ainda o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Cauê Macris, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

Doria também utilizou traslados pagos pelo estado para ir a eventos do Lide, que faz parte do Grupo Doria, cujo comando acionário o tucano passou aos filhos em 2016, às vésperas de assumir a Prefeitura de São Paulo.

Parte das agendas do Lide foi na capital paulista —como um seminário com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em agosto, e um “almoço-debate” com o presidente do Supremo, Dias Toffoli, também em agosto, e outro, com o ministro da Secretaria de Governo da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, em julho.

Além disso, o governador foi a evento do Lide em Campos do Jordão, cidade onde possui uma casa com heliponto, a Villa Doria, cujo terreno ocupa um quarteirão inteiro.

Em 4 de abril, o tucano embarcou em um helicóptero alugado pelo estado rumo à vila. O custo de mercado do voo é de R$ 18 mil. Sua agenda para aquele dia na cidade previa a assinatura de dois atos: um para autorizar a concessão de parques para ecoturismo e outro para permitir a concessão de um parque local.

Depois dessa cerimônia, que transcorreu das 17h às 17h30, seu compromisso era comparecer, como convidado especial, ao jantar de abertura do 18º Fórum Empresarial Lide.

Como não há registro de que ele tenha voado para a cidade de São Paulo depois do jantar, é possível supor que Doria pernoitou em Campos, já que no dia seguinte, às 8h30, ele fez a abertura oficial do fórum.

No retorno à capital paulista, o helicóptero fretado pelo governo deu carona à presidente do Instituto Ayrton Senna, Viviane Senna, que havia sido uma das palestrantes da conferência do Lide.

Em 12 de fevereiro, o governador paulista novamente combinou compromissos institucional e empresarial ao programar uma viagem para Belo Horizonte. Ele saiu do Bandeirantes em helicóptero do estado e foi para Congonhas, onde embarcou em um jato fretado com destino à capital mineira (custo estimado em R$ 25 mil).

O cirurgião plástico Alexandre Senra, que diz ter Doria como um de seus pacientes e ser amigo do político, foi um dos passageiros do avião. Depois de pousar no aeroporto da Pampulha, o governador viajou em um helicóptero privado rumo a Nova Lima, na região metropolitana de BH.

Lá ele participou de um almoço com empresários promovido pelo Grupo VB Comunicação, que é parceiro local do Lide, e voltou ao helicóptero para ir à Cidade Administrativa e se reunir com o governador de Minas, Romeu Zema (Novo).

A aeronave particular é operada pela Via Jap Comércio de Veículos Ltda., que disse ter feito o voo de graça, já que os proprietários da empresa são amigos dos diretores da VB, organizadora do almoço.

A presença de Doria nessas atividades foi publicada no site do governo. A análise isolada da tabela de voos permite ver, no entanto, que em pelo menos 4 ocasiões o tucano fez voos custeados pelo estado para compromissos que não constam na agenda.

Alguns casos foram motivados por emergências, como o massacre na escola Raul Brasil, em Suzano, e o velório do banqueiro Lázaro Brandão —no retorno do funeral, o helicóptero deu carona ao médico Claudio Lottenberg, que é conselheiro do hospital Albert Einstein e chairman do UnitedHealth Group Brasil.

Filiado ao partido Novo, Lottenberg é próximo do tucano e foi cotado para assumir a Secretaria de Estado da Saúde.

Doria fez ainda dois pousos não programados no hospital Sírio-Libanês, onde seu correligionário Bruno Covas estava internado para tratamento de câncer, em 24 e 28 de outubro.

Chama a atenção a ida do governador à unidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia na Liberdade (região central). Ausente da agenda dele de 9 de novembro, a visita foi feita em companhia da deputada estadual Damaris Moura, que é fiel da igreja e se filiou recentemente ao PSDB a convite de aliados de Doria.

Além de ter mobilizado um helicóptero Águia para levar o tucano ao templo, o governo enviou fotógrafo oficial para registrar a presença dele, que recebeu uma homenagem e se ajoelhou no altar durante uma oração. Damaris não viajou na aeronave, segundo os registros.

Outros dois deslocamentos aéreos feitos em nome do governador estão omitidos da agenda. Um em 27 de setembro, quando um helicóptero saiu do Bandeirantes rumo a Congonhas em um dia no qual ele teve apenas compromissos internos.

Na lista de voos, a viagem foi descrita como “traslado solicitado pelo capitão PM Kamada”, uma referência a Marcelo Kamada, que é ajudante de ordens de Doria.

Em 1º de dezembro, uma viagem cuja descrição se resume à palavra traslado foi feita em helicóptero que saiu de Congonhas e pousou no edifício do Lide, perto da casa do governador. Ele não teve compromissos públicos como governador nessa data, a mesma em que nove jovens foram mortos em um baile funk em Paraisópolis.

Esteve naquele domingo, porém, no Rio de Janeiro para filiar ao PSDB o ex-ministro Gustavo Bebianno, que comandou o PSL na campanha de 2018 e se tornou desafeto do presidente Bolsonaro.

Questionado, o governo não informou a razão dos dois deslocamentos que estão sem especificação.

Folha de S.Paulo
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