Foto: Divulgação/Arquivo
Gerson Brasil 12 de fevereiro de 2020 | 10:47

A atemporalidade de Jair e o candidato Moro, por Gerson Brasil*

bahia

Num campo político exaurido de representatividades com alguma sintonia com as demandas da sociedade, Jair até então nadava sozinho, apesar das críticas quase cotidianas debitadas no seu modo de se relacionar com o Congresso e com os grupos de interesses espalhados pelos diversos campos sociais; cultura, meio ambiente et al. Se bem que boa parte das críticas é para garantir privilégios e assegurar posição social e cargos no Estado.

Mas a partir da expansão desmedida de concentração do poder e da ausência frente a questões relevantes como a prisão em segunda instância e o desastroso acolhimento do juiz de garantias e da tentativa de repartição do Ministério da Justiça e da Segurança, Jair viu surgir a figura de Moro como sério concorrente ao Palácio do Planalto.

Moro, que até então era um ministro de Estado, agora é candidato à Presidência da República, com um importante elo com o eleitor, fixado no combate à corrupção, na prisão de segunda instância, que está para receber do STF, que a rejeitou, um molho interessante. Valeria apenas para crimes de mortes, mas não para os crimes de corrupção quando se leva para casa milhões de reais de dinheiro público. Nesse caso, os réus ficariam abrigados nos infinitos recursos, em liberdade, quem sabe até a prescrição do delito.

Moro tem nesse tema a peça fundamental da sustentação da Lava Jato, e não parece disposto a abrir mão por uma vaga no STF. Aliás, muitíssimas pessoas o querem por lá, a começar por Jair, que afastaria o concorrente, e trocaria armas e signos apenas com Huck e seu caldeirão temperado com a astúcia política, moldada na declaração de que “crescimento econômico sem redução da desigualdade é como amor sem beijo, Batman sem Robin, Bonnie sem Clyde”. Um efeito especial, positivista, retirado de revista em quadrinhos e da imaginação pitoresca de Hollywood. Outros postulantes, como Maia, Alcolumbre e seus pares, têm a consistência de um cheiro pelo avesso; no campo esquerdista é o ramerrão populista de sempre, agora adocicado, na corrupção e na recessão.

Jair e a sua atemporalidade mira tão somente a conquista de territórios, com as decisões que mudam, sem que o relógio fabrique tempo suficiente; foi assim na viagem à Índia, com o quase desmembramento do ministério de Moro, igualmente na demissão do personagem da Casa Civil, e outros eventos. Sob o temor dos fantasmas da traição e circunvizinhança, Jair se recusa ao tempo, como se estivesse diante de desafio intransponível, deixando de acumular experiências, destinos, intrigas, dores, astúcias, felicidade, ritos, ignomínias, sabores, conhecimentos. Se Alice, de Lewis Carroll, lhe propusesse o mesmo relógio do coelho, que o consultou apressadamente, despertando a curiosidade da menina, por certo perderia a cabeça, com as bênçãos da Rainha.

Moro, cujas propostas de combate à corrupção foram bastante desidratadas, com o auxílio de Jair, Maia, Alcolumbre, o Centrão e a esquerda, pontua bem nas pesquisas, e agora no Instagram tem a visibilidade e a credibilidade que todos os políticos querem, mas dificilmente conseguem alcançar, em razão de mãos sujas ou da ausência de ter o que dizer.

Maquiavel tencionou a moral do príncipe, às vezes sedimentada na força e na astúcia, para obter a obediência dos súditos recalcitrantes, com a moral cristã – amai-vos uns aos outros – refutada pelos “insurrectos” de Maio de 68, com “amai-vos uns sobre os outros, numa “blasfêmia descarada”. Tensão essa que não pode abrigar a tirania, nem o padecimento, muito menos se furtar a responsabilidade pelos atos, seja lá qual for o fim que se crê; mas também sem se guiar por valores absolutos. Nessa questão, Jair oscila no meio do caminho, como costuma fazer seus pares. Moro, pelas suas posições, é um homem de Estado, Jair em sua atemporalidade pode estar enfeixado num dos cinco volumes de o “Gênio do Cristianismo”, citado por Carlos, personagem de Alejo de Carpentier, em ”O Século das Luzes”. “Esta vida, que a princípio me havia encantado, não tardou em me ser insuportável”. No YouTube, Alice Russell e sua Citizens.

* Gerson Brasil é jornalista e editor de Economia da Tribuna.

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