Foto: Marcelo Casal Júnior/Agência Brasil
Carlos Decotelli 30 de junho de 2020 | 12:33

Pressão interna aumenta, e Bolsonaro quer que Decotelli peça demissão do MEC

brasil

Apesar de ter recebido a sinalização de que deve permanecer no cargo, o recém-nomeado ministro da Educação, Carlos Decotelli, envolveu-se em uma nova polêmica, o que, para auxiliares presidenciais, tornou sua situação praticamente insustentável.

Em nota divulgada na noite de segunda-feira (29), a FGV (Fundação Getúlio Vargas) negou que o economista tenha sido professor ou pesquisador da instituição. A informação constava em seu currículo, inclusive no texto divulgado pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) quando assumiu a presidência do fundo em fevereiro do ano passado.

A nova controvérsia irritou o presidente Jair Bolsonaro, segundo assessores. A permanência de Decotelli à frente da pasta é debatida na manhã desta terça pelo presidente. Depois da nota da FGV, uma ala do Palácio do Planalto acredita que Bolsonaro pode tomar uma decisão sobre a saída do ministro até o final do dia.

Segundo assessores palacianos, no encontro entre Bolsonaro e Decotelli no final da tarde de segunda-feira (29), o presidente cobrou explicações do ministro. De acordo com relatos feitos à Folha, ele não citou a questão da FGV, porém.

Para militares palacianos, a omissão foi considerada uma quebra de confiança, o que levou aliados tanto do presidente como do ministro a defenderem que ele peça demissão do cargo, evitando causar mais desgastes à imagem do governo.

Na noite de segunda-feira (29), Bolsonaro escreveu em rede social que “Decotelli não pretende ser um problema para a sua pasta (governo), bem como está ciente de seu equívoco”, num sinal de que não garantiria sua permanência no cargo e de que o ministro sabe da crise que criou.

Constava no currículo de Decotelli um doutorado pela Universidade Nacional de Rosario, da Argentina, mas o reitor da instituição, Franco Bartolacci, negou que ele tenha obtido o título, informação antecipada pela coluna Mônica Bergamo. Há ainda sinais de plágio na sua dissertação de mestrado.

Além disso, a Universidade de Wuppertal, na Alemanha, informou que o novo ministro não possui título da instituição, ao contrário do que constava em seu currículo, que mencionava pesquisa de pós-doutorado.

Com a série de polêmicas, Decotelli perdeu apoio inclusive entre quem o respaldava antes. Após as seguidas contestações ao seu currículo, aliados do ministro estão constrangidos em defendê-lo.

​No Palácio do Planalto, porém, há um receio sobre a repercussão de uma exoneração.

A preocupação é de que uma decisão do presidente possa fomentar uma crítica pelo fato de Decotelli ser o primeiro ministro negro da atual gestão. Por isso, a saída considerada ideal seria um pedido de demissão.

Apesar da nova polêmica, o presidente ainda não bateu o martelo. Para outro grupo de assessores palacianos, Bolsonaro pode deixar o ministro por mais tempo para não gerar o desgaste de mais uma baixa em sua equipe em pouco tempo e durante a pandemia do coronavírus.

Nesta terça-feira (30), o vice-presidente Hamilton Mourão disse à Folha que as polêmicas sobre o currículo do novo ministro não são graves. Ele ressaltou que Decotelli é um bom nome, mas que cabe a Bolsonaro definir se tem confiança no trabalho do ministro.

“Isso não é grave. Lembramos que tivemos uma presidente que tinha um currículo furado, que ela dizia também que era doutora e não tinha passado nem na esquina”, disse o general, em uma referência a ex-presidente Dilma Rousseff.

Apesar de o presidente não ter tomado uma decisão, ele pediu a deputados e assessores que indiquem nomes de possíveis substitutos. E fez uma solicitação: que os currículos dos nomes cotados sejam minuciosamente checados.

Para o cargo, voltaram a ser cogitados o secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, o ex-assessor do Ministério da Educação Sérgio Sant’Anna e o conselheiro do CNE (Conselho Nacional de Educação) Antonio Freitas. Os três têm apoio do chamado núcleo ideológico.

Com um contraponto, o núcleo militar passou a defender também o nome do professor Marcus Vinicius Rodrigues, ex-presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), que ajudou na transição do governo.

Com a possibilidade de uma mudança, deputados e senadores passaram a apoiar que a pasta seja comandada por um parlamentar. O nome favorito no Poder Legislativo é o do senador Rodrigo Pacheco (DEM-RO).

Folha de S.Paulo
Comentários