Foto: Política Livre
Pandemia da Covid-19 altera a rotina em quartéis pelo Brasil 04 de maio de 2021 | 09:17

Pandemia da Covid-19 altera a rotina em quartéis pelo Brasil

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Desde que a pandemia se abateu sobre o país, uma cena desapareceu do mais popular parque de São Paulo, o Ibirapuera (zona sul da capital) mesmo quando ele esteve aberto: a corrida de grupos de militares logo cedo, entre 7h e 8h.

A ordem é que, para evitar aglomerações em tempos de Covid-19, cada fardado faça sua rotina de exercícios em casa ou de forma individual no quartel.

Na capital, o usual é que isso ocorra antes do expediente, entre 6h e 8h, mas a regra não é fixa em nenhuma unidade das Forças Armadas: há quartéis em regiões quentes do interior nos quais a atividade ocorre à tarde.

Logo em frente ao Ibirapuera há nada menos que três importantes unidades do Exército Brasileiro: o Comando Militar do Sudeste, a 2ª Divisão de Exército e a 2ª Região Militar.

Além dos jovens e nem tão jovens em trote, o conjunto costuma chamar a atenção de quem passa pelas ruas adjacentes pelas suas guaritas ocupadas diuturnamente por desafortunados soldados.

Isso não mudou: cerca de 40 militares passam sempre a noite nos quartéis, em ronda ativa.

O Comando Militar é responsável pelo estado de São Paulo, e reúne cerca de 20 mil militares. Cerca de 500 circulam diariamente pela sua sede no Ibirapuera.

Já a Divisão, subordinada a ele, tem efetivo de cerca de 10 mil soldados para emprego operacional —talvez 50 fiquem no comando, enquanto o restante está pelo estado. Já a Região Militar cuida de questões logísticas e administrativas, com cerca de 150 pessoas baseadas no complexo.

O uso de máscara é uma constante, assim como as cotoveladas na hora de cumprimentos que não sejam saudações militares. A continência, brinca um militar, é bastante eficiente para o distanciamento social.

Isso se tornou um problema político. A queda do então comandante do Exército Edson Leal Pujol começou a ser definida por Jair Bolsonaro depois que ele se recusou a lhe dar a mão, oferecendo o cotovelo, numa cerimônia no Comando Militar do Sul, há um ano.

Em bases por todo o país, das três Forças, por um momento oferecer a mão sugeria o pendor bolsonarista do interlocutor e o cotovelo, o inverso. Oficiais-generais dizem que isso já passou.

A maior parte das cerimônias, e militares são dados a rituais constantes, foi cancelada. Em formaturas, por vezes assistidas por Bolsonaro, máscaras são menos comuns.

Não há usualmente home office para militar, mas todos os fardados de mais idade ou portadores de comorbidades foram colocados em casa. No Quartel-General do Exército, em Brasília, há turnos alternados por dia dos generais mais longevos —o Alto-Comando tem 15 deles, além do comandante da Força.

Há questões incontornáveis, com o treinamento dos integrantes do serviço militar obrigatório e de cadetes em academias.

As Forças adequaram protocolos, mas isso não impediu um surto de Covid-19 na Academia da Força Aérea, em Pirassununga (SP). Quase 250 alunos estão isolados.

Houve bolsões esporádicos da doença devido à concentração dos militares jovens. A taxa de infecção nas Forças Armadas é de 14,7%, mais que o dobro da média geral da população. Já as mortes fardadas são poucas, comparativamente: 0,17% ante 2,5%.

Enquanto as Forças lidam com a pressão política e investigação por cumplicidade em práticas indevidas, como no caso da fabricação de cloroquina a pedido de Bolsonaro pelo Exército, as UTIs militares estão cheias.

Elas atendem um universo de 1,8 milhão de pessoas, entre o pessoal da ativa, reserva e dependentes.

Ao todo, o Ministério da Defesa afirma ter aumentado de 84 para 280 os leitos de terapia intensiva nas 60 unidades de saúde das Forças —das quais apenas duas são hospitais de maior porte, em São Paulo e Brasília.

No mais, há improvisos. Na mesma Pirassununga, o Exército conseguiu fazer um exercício militar com 4.000 soldados no ano passado sem incidentes pandêmicos relatados. As barracas passaram a ser individuais, e houve distanciamento em treinos de tiros, por exemplo.

Igor Gielow/Folhapress
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