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Governador Rui Costa, que quer ser candidato a senador mas diz que não quer 29 de julho de 2021 | 08:23

Se ficar, Rui também pode acabar empurrando Leão ao governo, por Raul Monteiro*

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Políticos mentem normalmente sobre suas estratégias e não há nada que possa deslegitimá-las por isso. São, em geral, formas para buscar resguardar o sucesso de planos políticos, administrativos e eleitorais que podem ser melhor executados se mantidos, até certo ponto, sob segredo. Daí, o motivo para que neguem muitas notícias, insistam em desmentidos e, nos tempos atuais, chamem-nas até de fake, ou ainda elaborem meticulosamente despistes que apontem, em geral, na direção oposta do que pensam ou efetivamente pretendem. É possível enquadrar a recente declaração do governador Rui Costa (PT) sobre sua permanência no governo até o final neste arco?

Claro que sim. Durante uma de suas transmissões semanais pela internet, o petista aproveitou uma pergunta sobre se tinha planos de assumir o comando do Esporte Clube Bahia para, do nada, informar que pretende cumprir seu segundo mandato no governo baiano até o fim. “Você está me pedindo para eu ser presidente do Bahia, é isso mesmo? Não, não. Eu vou terminar meu mandato até o dia 31 de dezembro de 2022”, assinalou Rui, que pode tanto ter pretendido diminuir as especulações cada vez mais maiores sobre a possibilidade quanto dissimular um desejo seu verdadeiro, defendido pelo minúsculo núcleo que daria forma ao hoje chamado ‘ruisismo’.

Não espanta que o aviso ou o recado seja emitido na hora em que se divulga que, numa reunião exclusiva com senadores, em Brasília, há menos de dois meses, o ex-presidente Lula tenha se referido à possibilidade de uma mexida – ou oxigenada – no time aliado na Bahia por meio da indicação do senador Otto Alencar (PSD) ao governo e do próprio Rui ao Senado na sucessão estadual de 2022. Lula teria focado, claro, nos excelentes percentuais, segundo as pesquisas, que Rui exibe para a disputa, assim como na possibilidade de puxar para um eventual ministério seu o senador Jaques Wagner, hoje nome praticamente oficial do PT ao governo do Estado.

Uma chapa com o contorno mencionado pelo ex-presidente ainda teria o condão de contemplar a terceira força que dá sustentação à coalizão governista na Bahia, representada pelo PP, que, impedido pela lei de re-indicar o vice-governador João Leão à mesma vaga, poderia assimilar como compensação a possibilidade de ele assumir o governo por um tempo mínimo de nove meses no caso de renúncia de Rui para concorrer a senador. Em tese, sob a batuta de Lula, permaneceriam todos em casa, apenas em cômodos diferentes, vivendo em harmonia os próximos quatro anos a partir da eventual vitória eleitoral de 2022. Só em tese, porque Wagner não acredita no projeto.

O senador deseja voltar a governar sob o argumento de que, recuando, estaria, completados os 16 anos do PT no governo, devolvendo o poder na Bahia a ex-próceres do carlismo. Depois, teme que, uma vez aboletado na cadeira de governador, Leão dela se assenhore e decida concorrer à reeleição ao governo invocando a condição de candidato natural e implodindo a aliança atual, para o que, em sua opinião, os movimentos do vice para a sucessão já apontariam. Nada assegura, entretanto, que, com Rui ficando, Leão não se estimule a abrir a disputa ao governo, aproveitando a janela de oportunidade com que a ascensão do PP no plano nacional pode lhe presentear.

* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

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