Foto: Dida Sampaio/Arquivo/Estadão
Tenente do Exército, coordenador da Funai fala em 'meter fogo' em índios isolados no AM 22 de julho de 2021 | 12:06

Tenente do Exército, coordenador da Funai fala em ‘meter fogo’ em índios isolados no AM

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Coordenador da Funai no Vale do Javari (AM), o tenente da reserva do Exército Henry Charlles Lima da Silva encorajou líderes do povo marubo a disparar contra indígenas isolados caso sejam “importunados” por eles.

“Eu vou entrar em contato com o pessoal da Frente [de Proteção Etnoambiental] e pressionar: ‘Vocês têm de cuidar dos índios isolados, porque senão eu vou, junto com os marubos, meter fogo nos isolados’”, disse Henry, durante reunião na aldeia Paulinho, em 23 de junho.

O áudio foi obtido pela Folha, que confirmou a sua autenticidade.

Dezesseis dias antes, isolados raptaram uma mulher de 37 anos da aldeia, segundo relatos dos marubos. Depois de quatro horas de busca, ela foi encontrada sozinha na mata, com as mãos amarradas. Teria sido a terceira tentativa de sequestro da mesma mulher desde o final de 2020.

O surgimento dos isolados nessa região do rio Ituí está sendo investigado pela Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, que não é subordinada à Coordenação Regional, responsável apenas pelas populações indígenas contatadas.

A reportagem entrou em contato com a sede da Funai, em Brasília, no início da manhã desta quinta-feira (22), mas não houve retorno até a conclusão deste texto.

“São eles que estão saindo do território deles para importunar os marubos”, disse o coordenador no áudio.

“Não estou aqui pra desarmar ninguém, também não estou aqui pra ser falso e levantar bandeira de paz. Eu passei muito tempo da minha vida evitando a guerra, mas se a guerra vier, nós também não vamos correr. Se vierem na terra de vocês, vocês têm todo o direito de se defender.”

“Se eles [os isolados] cometerem algum delito, alguma ameaça a vocês, a gente tem de ver o que pode fazer pra poder parar”, afirmou o coordenador. “Eles já entendem. Já pedem cesta básica, já falam português, já têm contato direto com a frente, não se justificam certas atitudes deles.”

Não há povos isolados que falam português, e eles tampouco recebem cestas básicas. Henry, que está há um ano no cargo, provavelmente se confundiu com os korubos, povo indígena de recente contato.

“A gente tem de tomar uma providência para evitar um mal maior. Eu não tiro o direito de vocês, independentemente da lei penal ou não, de defender o seu território, a sua maloca, a sua casa, o seu povo, a sua mulher, as suas crianças.”

Ao final do áudio, Henry diz que o governo Jair Bolsonaro (sem partido) não consegue atuar na área indígena “por questões ideológicas”: “A Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) vai, denuncia, e a gente fica nesse impasse”.

Fabiano Maisonnave/Folhapress
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