Foto: Carlos Barria/Reuters
Cidade alvo dos ataques terroristas agora se vira para retomar a vida em meio à pandemia 12 de setembro de 2021 | 10:06

Duas décadas depois do 11 de Setembro, Nova York mudou para seguir a mesma

mundo

Na manhã de 11 de setembro de 2001, fui acordado pela Folha com a missão de tentar chegar ao World Trade Center e reportar o que estivesse acontecendo. Eu era correspondente do jornal em Nova York e morava no East Village, no sul de Manhattan, a 20 quadras de lá.

As primeiras informações davam conta que um bimotor havia se chocado acidentalmente com uma das torres. As instruções eram claras: eu deveria convidar minha mulher, a também jornalista Teté Ribeiro, para que ela ajudasse na apuração e fizesse fotos.

Ela carregou consigo uma câmera portátil de filme em formato Advantix, que a Kodak deixaria de produzir em 2011. Eu saí munido de caneta, bloco de notas e um celular pré-pago com pouco crédito, num mundo em que smartphones eram sonho distante.

O resultado é o texto que saiu na versão impressa do jornal em 12 de setembro de 2001; a maior parte das fotos permanecia inédita.

Vinte anos depois, na manhã deste sábado (11), refizemos o trajeto. Se o céu continua de um azul intenso como há 20 anos, a cidade sob ele mudou.

Para começar, o trajeto original ganhou dezenas de prédios novos, alguns que teriam sido obstáculo à visão que tínhamos naquele dia e que era o norte de nossa caminhada: primeiro as torres, depois a fumaça preta, então as quedas e por fim a nuvem de poeira branca.

Nova York viveu um boom imobiliário nestas duas décadas. Só na região do World Trade Center, houve um investimento de US$ 20 bilhões (R$ 110 bilhões). Aquela parte da cidade, até então de vocação comercial, ganhou vários prédios residenciais, com incentivos fiscais.

Paradoxalmente, o caminho é pontuado por dezenas de lojas vazias e cartazes com espaço comercial para alugar. É o rescaldo de quase dois anos de pandemia. Só nos primeiros cinco meses da crise sanitária, 7.100 negócios fecharam as portas na cidade.

Ensaia-se uma recuperação neste semestre de 2021, mas aos poucos. A exceção são as lojas de grife no SoHo, que já nesta manhã apresentavam filas nas portas de clientes, que entram seguindo 
os limites de uma lotação predefinida. E as barracas 
de maconha na Union Square.

O Estado de Nova York legalizou o uso recreativo da marijuana para adultos acima de 21 anos em julho —a medicinal já era permitida desde 2014. Agora, ao lado de quiosques que oferecem cheddar envelhecido de Vermont e mirtilos orgânicos, o cliente pode escolher as variedades “Nerds”, “Orange Fruit” e “Lucky Charm”, 
entre outras, para fumar.

Em 2001, dependendo da quantidade de maconha encontrada com uma pessoa, ela seria presa. O prefeito era Rudolph Giuliani, que nos dias após o ataque de 11 de Setembro foi apelidado “prefeito da América” e viu sua popularidade disparar. Anos depois, o republicano viraria um pária político ao apoiar cegamente Donald Trump em suas manobras judiciais.

Outro efeito da pandemia pode ser observado nas calçadas do caminho: há mais moradores de rua pedindo dinheiro. No começo da crise, para evitar contágio maior, o prefeito democrata Bill de Blasio decidiu remover 8.000 pessoas que usavam os abrigos municipais para dormir, onde muitas vezes até 70 delas dividiam o mesmo ambiente, para hotéis pagos pela cidade. A ação foi muito criticada, e ele encontra dificuldade de revertê-la hoje em dia.

O impacto da Covid está por toda parte. Restaurantes exigem prova de vacinação para clientes que quiserem comer nas mesas internas, e seus proprietários conseguiram da prefeitura autorização para construir anexos ao ar livre nas calçadas e nas ruas, muitos enfeitados com flores e luzinhas. Com isso, mudou a paisagem. O Village ganhou um certo ar de quermesse.

Nos bares cheios, já antes do almoço, policiais e bombeiros de Nova York, fardados mas em folga, emendaram as homenagens da manhã com encontros de antigos parceiros. Nos balcões e ao ar livre, as máscaras não são obrigatórias, e cada vez menos 
pessoas as utilizam nas ruas.

Farmácias e consultórios oferecem doses de vacina, muitas com cartazes anunciando os fabricantes. Não há lei contra os “sommeliers”, cada um escolhe a preferida, entre Moderna, Pfizer e Janssen. 
Nova York tem 67% de seus adultos inoculados com pelo menos a primeira dose, maior que a média nacional, de 63%, mas o número não avança.

A cidade oferece um bônus de US$ 100 (R$ 550) para quem levar um amigo ou parente para se vacinar pela primeira vez num dos postos municipais. Há também um programa público de vacinação em domicílio, com cadastramento online. Basicamente, qualquer um se vacina onde e quando 
quiser e ainda pode ser pago por isso, em alguns casos.

Quanto mais próximos chegamos ao local onde nesta manhã parentes homenageiam os que perderam há 20 anos, maior o movimento de pessoas.

Em sua fala na Pensilvânia mais à tarde, Joe Biden voltou a citar a polarização política pela qual o país passa. Numa loja de artigos para animais de estimação nesta manhã, ela pode ser tocada e mordida: a vitrine mostra bonecos de pano para cachorros com a figura do democrata e sua vice, Kamala Harris, ao lado dos de Donald Trump e Bill Clinton.

A poucos metros de onde a cerimônia vai chegando ao fim, um homem de barba longa carrega um cartaz que anuncia que “a verdade está chegando” e no qual urge que as pessoas “gentilmente acordem”. Ele canta em inglês “Prédio Sete/11 de Setembro”. É um dos vários negacionistas que aproveitam a concentração para anunciar sua teoria.

A torre sete foi a última a desabar em 11 de setembro de 2001. Apesar de não ser atingida por aviões, como as torres norte e sul, a edificação de 47 andares sofreu um grande incêndio e teve suas estruturas danificadas, o que acabou levando o prédio ao chão às 17h20. O problema é que ali estavam as instalações nova-iorquinas do FBI e da CIA.

Foi o suficiente para que se criasse a teoria conspiratória: o governo aproveitou a ocasião para colocar o prédio no chão, queimando junto as evidências de que estava envolvido no ataque terrorista. Policiais observam o ativista aparvalhado 
com olhar irônico. Vinte anos depois, Nova York mudou para continuar a mesma.

Sérgio Dávila / Folha de São Paulo
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