Foto: Javed Tanveer/AFP
Regra vem poucos dias após ONU, que pressiona o grupo por igualdade de gênero, facilitar ajuda humanitária 26 de dezembro de 2021 | 18:05

Talibã proíbe mulheres de viajarem sem companhia de um homem no Afeganistão

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A despeito da pressão internacional para assegurar igualdade de gênero no Afeganistão, o Talibã, grupo fundamentalista islâmico que retomou o controle do país em agosto, anunciou neste domingo (26) que as mulheres só podem viajar por longas distâncias desde que estejam acompanhadas de um homem de sua família.

O regime liderado pelo grupo ordenou ainda que motoristas só aceitem mulheres em seus veículos caso elas estejam usando o véu islâmico, de acordo com a nova lista de regras divulgada pelo Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, braço do Emirado Islâmico —forma como os talibãs autodenominam o regime.

A proibição das viagens para mulheres desacompanhadas vale para distâncias maiores que 72 quilômetros, segundo um porta-voz da pasta informou à agência de notícias AFP. A medida se soma a um guarda-chuva de outras regras que cercearam os direitos das afegãs nos últimos meses, como a proibição de praticar esportes.

Para Heather Barr, diretora da divisão sobre direitos das mulheres da ONG Human Rights Watch, a nova norma ajuda a revelar a perspectiva sombria do que os talibãs pensam para os direitos das mulheres. “Esta ordem avança na direção de transformar as mulheres em prisioneiras”, disse a pesquisadora à AFP.

O grupo fundamentalista não detalhou quando as regras começam a ser implementadas, mas, neste sábado (25), militantes talibãs instalaram barreiras em alguns pontos de Cabul, capital do país, para informar os motoristas sobre o assunto.

Desde que retomou o poder no país da Ásia Central após a retirada das tropas ocidentais, o Talibã adotou restrições aos direitos de mulheres e meninas, ainda que tenha feito promessas de moderação, afirmando que o regime seria menos rígido do que quando o grupo governou o país pela primeira vez, de 1996 a 2001.

Até o momento, o grupo, que se vê pressionado internacionalmente e, também, nacionalmente, com ataques frequentes da ramificação afegã do Estado Islâmico, afrouxou alguns direitos das mulheres, mas manteve pressão sob outros. As Nações Unidas condicionam a liberação de ajuda internacional ao país, que está à beira do caos econômico, à garantia da igualdade de gênero, entre outras coisas.

No início do mês, o grupo publicou decreto em que diz que mulheres não devem ser consideradas propriedade e só devem se casar se consentirem com o matrimônio, não por coerção de familiares ou conhecidos. Por outro lado, multiplicam-se os relatos de regiões que proíbem as mulheres de trabalharem, ainda que a mão de obra feminina seja crucial para a retomada econômica afegã.

As Nações Unidas já alertaram para a proximidade de uma “avalanche de fome” no Afeganistão e consideram que 22 milhões dos 40 milhões de afegãos podem sofrer falta aguda de alimentos durante o inverno no Hemisfério Norte (verão no Hemisfério Sul).

O Conselho de Segurança da ONU adotou, na última quarta-feira (22), por unanimidade, uma resolução proposta pelos Estados Unidos para facilitar a ajuda humanitária ao Afeganistão durante um ano, numa espécie de exceção humanitária que não derruba as sanções erguidas.

A resolução estabelece que o pagamento de fundos e o fornecimento de bens e serviços necessários para responder às necessidades sociais do país sejam autorizados de modo a não violar as sanções e monitorados constantemente para que não corram o risco de ficar sob controle do grupo fundamentalista, mas sim de ONGs e de civis.

O embaixador adjunto dos EUA nas Nações Unidas, Jeffrey DeLaurentis, disse que a exceção visa facilitar a ajuda ao povo afegão. “Mas não é um cheque em branco para organizações que violam suas obrigações internacionais”, acrescentou, em conversa com a AFP.

O porta-voz do Talibã, Zabiullah Mujahid, por sua vez, disse que a medida representa um passo importante para mitigar a grave situação econômica que o Afeganistão enfrenta. “É um passo que merece reconhecimento e que ajuda muito o povo afegão.”

Folha de S. Paulo
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