Foto: Ronny Santos/Folhapress/Arquivo
Mônica Calazans, a primeira pessoa vacinada contra a Covid-19 no país 15 de janeiro de 2022 | 07:19

Brasil completa um ano de vacinação contra Covid com déjà-vu de 2021

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O momento em que o Brasil completa um ano do início da vacinação contra a Covid parece um déjà-vu de janeiro de 2021: o governo Bolsonaro faz falas contra os imunizantes, começa uma nova fase da campanha vacinal e mais uma variante provoca uma onda de infecções que se alastra rapidamente pelo país.

No dia 17 de janeiro de 2021, às 15h30, após o aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a enfermeira Mônica Calazans recebeu a primeira dose do Brasil da vacina contra a Covid, fora de estudos clínicos.

A aplicação da Coronavac ocorreu no Centro de Convenções do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, na capital paulista, sob olhares de jornalistas e do governador do estado, João Doria (PSDB), que, naquele momento, já rivalizava há tempos com o presidente Jair Bolsonaro (PL) em assuntos relacionados à Covid.

A produção da vacina chinesa Coronavac no Instituto Butantan, inclusive, além do óbvio potencial de saúde pública, poderia servir como um trunfo para Doria em uma eventual candidatura à Presidência.

Quase um ano depois, nesta sexta-feira (14), foi a vez de o garotinho indígena Davi Seremramiwe Xavante, 8, ser a primeira criança menor de 12 anos vacinada contra a Covid no Brasil. Mais uma vez, no Hospital das Clínicas, ao lado de Doria.

Antes da vacinação de Calazans, em 2021, Bolsonaro questionava a segurança dos imunizantes. Chegou a fazer chacota quando testes da Coronavac foram paralisados pelo suicídio de um voluntário.

“Mas pressa para a vacina não se justifica, porque você mexe com a vida das pessoas”, disse Bolsonaro, em entrevista ao próprio filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), em dezembro de 2020. Na mesma ocasião, afirmou que a pandemia estava chegando ao fim.

Enquanto outros países já começavam a vacinação, não havia sinais de início no Brasil —o governo federal não assinara contrato para fornecimento dos imunizantes da Pfizer-BioNTech. “Para que essa ansiedade, essa angústia?”, afirmou sobre o início da vacinação o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Uma demora semelhante e constantes falas se opondo à vacinação infantil contra a Covid marcaram o fim de 2021 e o início de 2022. O governo chegou a abrir uma consulta pública e planejar exigência de pedido médico para que as crianças de 5 a 11 anos se vacinassem.

“A pressa é inimiga da perfeição. Principal é a segurança”, afirmou, em dezembro de 2021, Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, ao ser questionado sobre a possibilidade de antecipar a vacinação infantil, com vacinas da Pfizer (imunizante com registro definitivo na Anvisa), que já ocorria em segurança em outros países.

Renato Kfouri, pediatra, infectologista e diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), destaca que o ministro não perde a chance de falar que só os pais que quiserem vão vacinar as crianças contra a Covid.

Até por redes sociais isso é visível. “As vacinas infantis contra a Covid-19 NÃO SÃO obrigatórias. As vacinas contra a Covid-19 são emergenciais e foram autorizadas no âmbito da emergência sanitária e são incluídas apenas no PNO [Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra Covid-19]”, publicou o ministro, em resposta a tuítes.

“Nós temos um presidente antivacinista que, sempre que pode, fala mal das vacinas”, diz Kfouri. “O lançamento da vacina nas crianças foi quase um pedido de desculpas por ter colocado a vacina no calendário.”

Apesar de todas as falas negativas, a vacinação no país foi muito bem recebida pela população, que, em vários momentos, chegou a enfrentar filas para conseguir sua dose. “Pode não atrapalhar tanto, mas não ajuda”, afirma o diretor da SBIm sobre os comentários antivacina de Bolsonaro.

A demora para o início da vacinação, porém, pode ter acarretado um custo de vidas, diz Raquel Stucchi, professora da Unicamp e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

“Com vontade política e planejamento adequado, nós teríamos evitado milhares de mortes, porque já teríamos a população vacinada antes e com maior celeridade”, afirma a infectologista.

O ano de vacinação contra Covid no Brasil também jogou mais luz ainda sobre algo que já era comprovado por estudos: as vacinas são seguras e eficazes para os mais diversos grupos.

E vale destacar que os imunizantes que usamos foram feitos com o “molde” do Sars-CoV-2 que deu origem à pandemia, em Wuhan, na China. Mesmo assim, as vacinas continuaram com níveis altos de efetividade contra as variantes de preocupação que surgiram mundo afora —e, no Brasil, como a gama.

“O objetivo delas foi diminuir mortalidade e hospitalização. Todas elas cumpriram muito bem esse papel”, afirma Stucchi.

As mortes por Covid, de modo geral, acabaram relativamente controladas em países com ampla vacinação, entre eles o Brasil. Atualmente, uma fatia significativa de casos graves, hospitalizações e mortes ocorrem em pessoas não vacinadas.

Por aqui, até mesmo o impacto da delta —altamente transmissível e que fez estragos em outras nações— foi relativamente pouco sentido, apesar da presença maciça da variante no país.

Segundo Stucchi, a explosão anterior da variante gama no Brasil, que levou a médias de mortes superiores a 3.000 por dia e, consequentemente, a um amplo contato prévio com a doença na população, é uma das explicações para o impacto menor da delta. A outra é o grande contingente de pessoas com vacinação recente e, consequentemente, maior proteção.

Esse, por sinal, é um dos aprendizados do Brasil e do mundo no último ano. As vacinas têm uma diminuição da proteção com o passar do tempo, diz Kfouri. Além disso, observou-se também uma maior efetividade de vacinas feitas a partir de RNA mensageiro, como é o caso da Pfizer, para populações mais frágeis, como pessoas imunocomprometidas e idosos.

Inicialmente, a vacinação no país foi guiada pela Coronavac, vacina feita com vírus inativado, mas, atualmente, as vacinas da Fiocruz/Oxford e da Pfizer são as mais usadas. Estudos mostraram uma queda considerável de proteção, com o passar do tempo, para populações mais frágeis que tomaram o imunizante do Butantan.

Outro aprendizado foi a necessidade de uma dose de reforço, exatamente pela queda de proteção com o tempo. Segundo Stucchi, a rápida aprovação no Brasil para o reforço vacinal foi um acerto no combate à pandemia.

O déjà-vu no Brasil se completa com uma nova variante. Assim como a gama, no fim de 2020 e início de 2021, fez soar um alarme e subir o número de casos, a chegada da ômicron fez explodir rapidamente as infecções por Covid entre o final de 2021 e o começo de 2022.

A nova variante deixou claro algo que muito se pesquisava e especulava sobre as vacinas disponíveis: elas, sem dúvida, dificultam a transmissão, mas não necessariamente conseguem impedi-la. A ômicron é a expressão disso.

“Ela é transmissível demais e não poupa vacinados”, diz Kfouri.

Para o segundo ano vacinal contra Covid no Brasil, o diretor SBIm espera que, possivelmente, todos acabem tendo que tomar alguma dose a mais.

Ao mesmo tempo, vacinas atualizadas com cepas dominantes do Sars-CoV-2 e ainda mais efetivas para conter a transmissão devem surgir. Afinal, a política de aplicação constante de doses de reforço não é viável, como vem apontando a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Além disso, para que as campanhas vacinais tenham sucesso de forma ainda mais robusta dentro dos países, entidades e especialistas têm alertado que é necessária uma distribuição mais igualitária dos imunizantes pelo mundo.

E, mais uma vez, a ômicron, identificada na África do Sul, é a expressão do risco que toda a humanidade corre ao deixar países e continentes com pouco acesso à proteção.

Phillippe Watanabe, Diana Yukari e Cristiano Martins, Folhapress
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