Foto: Antonio Augusto/Arquivo/Câmara
Pastor Sargento Isidório, fundador da Dr. Jesus 23 de junho de 2022 | 08:09

Isidório não é o único culpado pelos ‘desatinos’ denunciados na Dr. Jesus, por Raul Monteiro*

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Não era improvável e muito menos impossível que a Fundação Dr. Jesus, do deputado federal Pastor Isidório, se tornasse objeto de uma reportagem-denúncia com a amplitude e gravidade que o Fantástico, da Rede Globo, lhe deu, no último domingo. Bastava apenas, como praticamente quase tudo de justo que toma lugar neste país, que as circunstâncias favorecessem a mais do que oportuna cobertura. Afinal, não é de agora que se ouvem relatos sobre os métodos supostamente escabrosos e certamente heterodoxos que a entidade, liderada basicamente pelo ex-militar e líder evangélico, utiliza na tentativa místico-religiosa de recuperar drogados.

Não dá, no entanto, para colocar exclusivamente em Isidório a culpa pelos desatinos que, segundo as acusações, ocorrem na instituição. Talvez em menor gravidade, por causa da postura de omissão ou de incentivo indireto que sempre lhe deram, são igualmente culpados todas aquelas instituições e políticos, alguns deles bastante importantes, e tanto da esquerda quanto da direita, do governo e da oposição, que nunca quiseram encarar de frente a aura pouco convencional, para usar um eufemismo, ou de baixo profissionalismo que mentes sensatas sempre identificaram no espaço. Para eles, o mais importante era buscar surfar na popularidade de Isidório.

Uma popularidade, diga-se de passagem, decorrente exatamente do assistencialismo proporcionado pela Dr. Jesus a uma população tradicionalmente vulnerável – e ainda mais vitimizada pelo flagelo das drogas, carente em tudo da atenção do Estado -, mas irrigada, como se sabe, por fartos recursos públicos, provenientes tanto de governos quanto das emendas que ele consegue lhe dirigir, agora pela Câmara dos Deputados, na qualidade de parlamentar. O fascínio pela subsidiada força eleitoral de Isidório não levou seus colegas de atividade política apenas a cobiçarem seu apoio para chapas majoritárias em tempos de eleição.

Um grupo chegou ao desplante de, depois de recomendar, apoiar indiretamente sua candidatura à Prefeitura de Salvador dentro de uma lamentável e fajuta estratégia de tentar ajudar uma determinada candidata nas eleições municipais passadas, pouco se importando com o risco que uma eventual vitória sua representaria para o futuro da cidade nem com os vexames que, com seu estilo entre grotesco e folclórico, o personagem acabaria protagonizando. As imagens da campanha são profusas, mas não dá para esquecer um video que circulou nas redes em que Isidório aparece cantando acorrentado à caçamba de uma camionete em disparada pelas ruas de Salvador.

Frente à cena, um cidadão comum não sabe se chora ou ri. Talvez não se possa contestar o papel social que a Fundação Dr. Jesus deve ter cumprido todos estes anos, ainda que ‘torturando’ internos dentro de sua assustadora metodologia de psicoterapia agora em xeque. Dadas as evidentes limitações do seu fundador, o mínimo que se esperava do Estado que o financiou até aqui é que condicionasse o apoio à entidade ao cumprimento de critérios técnicos e protocolos capazes de assegurar, de fato, um tratamento digno aos atendidos. Oxalá, mesmo com a surpreendentemente tardia entrada em cena do Conselho de Psicologia e do MP baiano, isso agora ocorra.

* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

Raul Monteiro*
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