Home
/
Noticias
/
Brasil
/
Quase 3 milhões de pessoas dependem de combustíveis fósseis na Amazônia Legal, diz levantamento
Quase 3 milhões de pessoas dependem de combustíveis fósseis na Amazônia Legal, diz levantamento
Por Gabriel Gama/Folhapress
22/05/2026 às 06:44
Foto: TV Brasil
Floresta amazônica
A Amazônia Legal concentra cerca de 34% da capacidade hidrelétrica do Brasil, mas 2,7 milhões de habitantes, ou 10,1% da população local, dependem exclusivamente de combustíveis fósseis para acessar a energia. É o que aponta relatório da rede Uma Concertação pela Amazônia e do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), com informações da Empresa de Pesquisa Energética.
Apesar da conexão de Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em 2025, parte considerável do bioma segue desconectado das linhas que distribuem a eletricidade gerada no país: 2,5 milhões de habitantes de cidades e distritos maiores precisam recorrer a sistemas isolados, como usinas térmicas a diesel, com regulação da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
Outras 200 mil pessoas que vivem em regiões remotas, como comunidades rurais, indígenas, ribeirinhas e extrativistas, usam geradores movidos a gasolina ou diesel.
A Amazônia Legal tem 26,6 milhões de habitantes, de acordo com o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É composta por nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão.
A pesquisadora Georgia Jordão, coordenadora do estudo, diz que os sistemas isolados garantem fornecimento contínuo, mas têm alto custo operacional e grande vulnerabilidade logística, já que o abastecimento de combustível é sujeito às condições de transporte em rios e estradas.
A insegurança energética é ainda maior nos locais remotos, com as dificuldades de acesso nos períodos de seca e chuva.
"A dependência de fósseis, especialmente o óleo diesel, gera impactos em várias dimensões da vida dos amazônidas", afirma. "Em muitos casos, a energia funciona apenas algumas horas por dia, limitando serviços essenciais como saúde, educação, refrigeração e conectividade."
Mais de 84 mil estabelecimentos produtivos na região seguem sem acesso à energia elétrica, de acordo com o documento. "Isso não é apenas um déficit de infraestrutura, é uma falha de desenho institucional", diz Vinícius Oliveira da Silva, pesquisador do Iema e um dos autores do estudo.
O relatório calcula que os geradores a diesel são até 16 vezes mais poluentes: 1 MWh em sistemas isolados emite 0,64 tonelada de CO2e (dióxido de carbono equivalente), medida que agrega diferentes gases do efeito estufa, ao passo que o sistema interligado emite 0,04 tonelada de CO2e para produzir a mesma quantidade de energia.
Cerca de 90% da eletricidade gerada nos sistemas isolados vem de combustíveis fósseis, segundo o estudo. "Houve melhora discreta nos últimos anos, mas as fontes renováveis ainda têm participação limitada, representando apenas 9,3% da geração nesses sistemas", diz Jordão.
Para mudar o cenário e reduzir a insegurança energética, o relatório sugere substituir as usinas térmicas por sistemas solares fotovoltaicos e usar resíduos urbanos e agrícolas para gerar biogás.
Os pesquisadores dizem que o programa federal Luz Para Todos trouxe avanços à região, e 43,6 mil novas famílias passaram a acessar a rede elétrica de janeiro de 2023 a novembro de 2024.
"Ainda assim, o desafio permanece expressivo devido às particularidades territoriais da região, marcadas por grandes distâncias, baixa densidade populacional, isolamento geográfico e elevada dispersão das comunidades", afirma Jordão.
