Elias de Oliveira Sampaio

Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é autor do livro Política, Economia e Questões Raciais - A conjuntura e os pontos fora da curva, 2014-2016, ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade Ravial, economista do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. Foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

Black Mirror ou Último Tango em Paris?

Eu nunca gostei do jogador Neymar Jr. Continuo não gostando de suas performances nos gramados e fora deles. Avalio que ele é um daqueles casos que Deus errou o alvo quando, por dádiva, lhe deu um imenso talento para o futebol. No entanto, como até o ser Supremo, às vezes faz autocríticas, isso também deve ser a explicação para o atleta não ter conseguido – e acho que nunca conseguirá – ser “o craque” das competições internacionais defendendo o mais icônico time do planeta: a seleção brasileira, especialmente, em copas do mundo.

Mas, para além de uma ótima sugestão de roteiro para um dos episódios da cultuada série Black Mirror da Netflix, esse caso do suposto estupro de que ele está sendo acusado, cabe, sim, reflexões. O imbróglio é algo muito além do que mais uma história tragicômica de jogadores famosos e marias chuteiras de plantão, como muitos estão a vociferar. Não é!

Fatos como esse tem sido, em maior ou menor grau, bastante corriqueiros nesses tempos de relacionamentos intermediados por soluções digitais. Esse novo modelo de contato entre pessoas e organizações tem se espraiado desde as arenas profissionais e políticos-institucionais, até os mais restritos círculos familiares, de relações afetivas e até sexuais, os quais, vem inundando o noticiário com informes que variam desde ridículas manifestações de diversas formas de intolerâncias, até tragédias e escândalos permeados por atos de violência com requintes de perversidade, físicas e emocionais.

Esse é o pano de fundo da questão e não uma simples aventura erótica frustrada, protagonizada por uma celebridade mundial e uma candidata a personalidade de fama volátil. Assim sendo, não buscar aprendizados numa situação pública que envolve dois jovens de vinte e poucos anos – portanto, exemplos explícitos do que pode vir a ser o nosso futuro – não nos parece razoável. Adicione-se a isto, o fato de que um deles é a representação mítica de sucesso profissional e esportivo, em nível global, para diferentes gerações de todas as camadas da sociedade, em escala mundial.

Ou seja, num ambiente em que eleições de países importantes como EUA e Brasil são decididas com o auxílio luxuoso de bots politicamente orientados; em que o tradicional governo parlamentarista da Grã-Bretanha é colocado numa “cama de gato” política, devido a um plebiscito previamente enxertado por mensagens eletrônicas mal-intencionadas, eventos como esse são, igualmente, sinais do nosso tempo e, como tais, exigem sim serem entendidos e discutidos para além da superficialidade aparente que os meios de comunicação de massa e as redes sociais reverberam.

Do ponto de vista masculino, por exemplo, não nos parece ser banal essa trama ocorrer numa época em que termos como masculinidade tóxica vem sendo agregado às tradicionais categorias de análise histórico-sociológicas das lutas feministas (patriarcado, machismo, misoginia) no sentido de configurar instrumentos para micro-avaliações e micro-monitoramentos do comportamento dos homens em todos os setores da vida, a todo o tempo. Nesse contexto, e considerando que a narrativa da suposta vítima seja 100% verdadeira, uma primeira pergunta nos parece necessária, qual seja, como classificar o comportamento de Neymar Jr. nesse acontecimento? De “Vacilão”? De vítima?

Ou, teria ele realmente cometido o crime de estupro e, portanto, se encontra devedor da justiça brasileira, ou até mesmo da francesa, a depender dos desdobramentos das investigações? Para quem acredita nessa hipótese e na higidez do discurso da aparente vítima, o assunto pode ser dado por encerrado e o craque – “mais um macho estuprador” – deve ser devidamente encarcerado para pagar pelo seu crime. Ponto.

Obviamente, não é isto que acontecerá, pois, como qualquer pessoa, ele tem a seu favor o direito de ampla defesa e, sem limite orçamentário, deverá aproveita-lo ao máximo possível, utilizando-se dos melhores (e mais caros) advogados do mundo. Além disso, essa não nos parece ser a parte mais instigante de toda a história e o ponto que queremos chamar atenção é que essa pauta não está nas redações de todos meios de comunicação, trending topics e nas rodas de conversas, por se tratar de uma fofoca do mundo das celebridades, da pratica de mais uma brutalidade de um “macho nojento” e, muito menos, pela seara judicial em que ela está adentrando.

Por honestidade intelectual devemos admitir que muito da exposição dessa trama, se deve ao fato de que o discurso da suposta vítima de estupro tem se mostrado, a cada dia, mais inverossímil e fragilizado no sentido de garantir a seriedade que a sua acusação demanda. Ademais, essa vulnerabilidade vem se estruturando de forma desconcertante, especialmente, por causa da intermediação tecnológica envolvida em todo esse processo. Fora a divulgação dos rastros digitais de ambos os personagens, noticia-se que foi do próprio tablete da acusadora que saiu um vídeo de 60 segundos, fragmento de um conteúdo de 7 minutos, intencionalmente registrado por ela. Nesse eterno minuto de gravação, são apresentadas imagens que parecem resumir toda a contenda, remetendo às típicas e deletérias situações dos realities shows exibidos no Brasil nos últimos anos

Então, mesmo levando-se em conta os novos tempos de “tinders” e de “jeniffers”, cabe-nos levantar uma segunda indagação que julgamos importante: socialmente, como poderemos categorizar o papel dessa personagem acusadora e supostamente “hipossuficiente” em toda trama? Estaria ela sendo mais um alvo do já naturalizado chauvinismo machista brasileiro? Ou, praticando um simples ato de oportunismo com o intuito de extorsão, como açodadamente muitos tem defendido?

De nossa parte, frise-se, não são essas as questões mais importantes para esse debate, mesmo porque, nunca se saberá por completo, nem o contexto e, muito menos, o que de fato, teria ocorrido naqueles dias de “Último Tango em Paris”.

No entanto, só pessoas muito seguras de um poder intrínseco a sua individualidade, poderiam assumir tamanha responsabilidades sobre si e sobre outrem, para fazer valer seus desejos, nesses tipos de circunstâncias. Isto é, subjacente a tudo que até agora está sendo revelado, parece estar se evidenciando um indesejável padrão de comportamentos, já observado por muitos, mas só discutidos seriamente por poucos, que nos parece sugerir que junto com o substantivo da moda – empoderamento – seja imperativo associar algumas palavras complementares para lhe garantir um sentido social mais eficaz e efetivo. Responsabilidade. Essa nos parece ser a principal dessas palavras.

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