Eduardo Salles

Agronomia

Eduardo Salles é engenheiro agrônomo e mestre em engenharia agrícola pela Universidade Federal de Viçosa, ex-secretário de agricultura da Bahia e ex-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Agricultura (Conseagri). Foi presidente da Associação de Produtores de Café da Bahia e também da Câmara de Comércio Brasil/Portugal e é, há 14 anos, diretor da Associação Comercial da Bahia. Ele escreve neste Política Livre quinzenalmente, às quartas-feiras.

Chegou a vez do chocolate

Agora em julho, em Ilhéus, aconteceu a XIª edição do Festival do Chocolate. E o sucesso pôde ser medido não só pelo crescimento do evento, que acompanho desde o primeiro ano, mas pela ocupação dos hotéis, restaurantes e o trade turístico no município. Essa vitória é resultado do trabalho abnegado de uma turma, comandada por Marcos Lessa, que está na luta há anos, mas que sabe o quanto ainda falta caminhar.

Não há como dissociar o cacau do sul da Bahia. O fruto e a região estão ligados de forma umbilical. E acho que devemos agradecer muito por isso. Porém, apesar de toda a riqueza que o “ouro negro” nos trouxe, ainda não conseguimos extrair dessa cultura tudo que ela pode trazer à população e à economia baiana.

Antes toda a produção de cacau era ensacada e enviada in natura para o exterior. A amêndoa era uma commoditie que trouxe muita riqueza à época. Vivemos um período sombrio com a vassoura-de-bruxa, mas aos poucos conseguimos voltar a ter esperança com a plantação de variedades resistentes à praga.

Porém, que fique claro, ainda não recuperamos o volume produtivo de 40 anos atrás. Conforme os dados, em 2018 a Bahia produziu 122,8 mil toneladas de cacau, muito abaixo das 400 mil de 1980.

E a luz no final do túnel chega porque um grupo entendeu que trabalhar com o cacau é muito mais que ver nossas amêndoas saírem dos portos com destino ao exterior. A verticalização da cadeia produtiva finalmente entrou na agenda dos produtores, empreendedores e poder público.

Lembro que quando estive à frente da secretaria estadual de Agricultura pude, com técnicos do órgão e produtores do sul da Bahia, ajudar com a formação da Câmara Setorial, fundamental na estruturação e execução da verticalização da cadeia produtiva.

Outra ação importante foi que conseguimos trazer à Bahia em 2012 o Salon du Chocolat, maior evento mundial de chocolate e que acontece tradicionalmente em Paris, na França, e 50 chocolatiers de vários países para conhecer a região, o que ajudou a acelerar o processo.

Nunca entendi o porquê de países que não produzem uma única amêndoa de cacau, como Bélgica, França e Suíça, conseguirem prestígio internacional nos seus produtos e nós não.

Nos últimos anos conquistamos prêmios mundiais por produção de amêndoas de qualidade. Temos todas as ferramentas para competir neste mercado. Há sete anos eram apenas cinco marcas de chocolate gourmet na Bahia. Hoje já são mais de 70.

Mas é preciso oferecer as ferramentas para seguir crescendo: resolver questões fundiárias, permitir que os produtores tenham acesso a crédito, incentivar uma rota específica de turismo e abrir mercados para que o chocolate fino produzido no sul da Bahia possa ser o maior vetor de crescimento da região.

Vivemos um novo ciclo com a cultura e acredito que minha missão na Assembleia Legislativa da Bahia é ajudar na elaboração de políticas públicas e execução de ações do governo federal e estadual para agregar todos os agentes da cadeia produtiva, do plantio, por meio do sistema cabruca, para a preservação da Mata Atlântica, à produção industrial em larga escala, passando por pequenos agricultores familiares e a diversificação de produtos.

Confesso que tenho enorme vontade de ajudar como filho, neto e bisneto de cacauicultores, deputado estadual, engenheiro agrônomo e apaixonado pelo cacau e o sul da Bahia. É claro que são muitos obstáculos, mas acredito demais nesta turma que tem demonstrado claramente ser possível oferecer outra realidade econômica à região.

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