Adriano Peixoto

Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

Em defesa da Jabuticaba

Componente importante do nosso auto conceito, da auto imagem nacional, é a ideia de que somos um povo criativo. As manifestações positivas dessa ideia incluem as várias formas de expressão cultural no campo das artes e uma capacidade de transformação de aspectos mais duros da realidade a partir de um elemento lúdico. No lado negativo, a criatividade do brasileiro se manifesta na forma de estruturas, controles, leis, normas e processos tão esdrúxulos, tão sem sentido, que parecem não ter par em nenhum outro lugar do mundo civilizado. Quando nos deparamos com algo dessa natureza recorremos a imagem da jabuticaba, fruta tipicamente brasileira, para expressar o caráter único desse elemento da, vamos dizer, criatividade nacional…

O congresso nacional tem sido terreno fértil para a plantação e produção de jabuticabas jurídicas, especialmente aquelas cultivavas pelas corporações que insistem em querer tomar de assalto a vida nacional.  Uma das mais recentes é Projeto de Lei do Senado 439/2015, de autoria do senador Donizete Nogueira (PT-TO). A ementa do PLS é singela Dispõe sobre o exercício de atividades nos campos da Administração, mas sua intensão e seus efeitos são devastadores. Sobre o pretexto de adequação de uma tal ciência das administração, o projeto propõe uma reserva de mercado mal disfarçada para profissionais inscritos nos conselhos regionais de administração. Não precisa ir muito longe na leitura do texto, nem ir muito fundo em uma exegese complexa para percebermos a extensão do problema posto. Basta a leitura de um único inciso: § 1o São considerados campos da Administração e trabalhos técnicos privativos do Administrador, sem prejuízo de outros já consagrados em lei: VIII – planejamento, organização, coordenação, execução e controle de serviços de Administração em geral. Partindo das definições mais clássicas sobre o que consiste o trabalho do gestor de uma organização qualquer, percebemos que nada, absolutamente nada, escapa dessa definição. E como se isso não fosse suficiente, o PLS propõe que sua aplicação se estenda a qualquer tipo de organização seja ela pública, privada e não governamental.

Nós já vimos essa espécie de jabuticaba florescer antes: em um determinado momento o Conselho Federal de Administração tentou tornar privativo dos administradores a gestão de pessoas (ou recursos humanos) (Ver o acórdão 06/2011 do plenário do CFA). Algo semelhante também já se manifestou em uma tentativa de regulamentação das atividades e competências dos profissionais de medicina que deu origem ao tal projeto do Ato Médico (PLS 268/2002), que recebeu repulsa e foi abertamente combatido por todas as demais profissões da área de saúde.

Até entendo que um órgão de classe atue na defesa dos interesses corporativos de uma determinada categoria, mas tem limites. O chamado campo da gestão é por natureza, tradição, evolução, operação e definição, interdisciplinar. Um dos principais estudiosos sobre formação de executivos, Henry Mintzberg, é engenheiro mecânico de formação. Aliás, ele é da opinião de que não se aprende sobre como ser gestor nas escolas de administração, só a prática ensina! Também era engenheiro,Taylor, o pai da administração científica. A Escola das Relações Humanas, fundamento da gestão de pessoas, se constrói sobre o trabalho de um Psicólogo, Elton Mayo. Ricardo Semler é formado em Direito, Jack Welsh é engenheiro químico… Poderíamos passar o dia todo citando contribuições significativas de não administradores para a teoria e prática da gestão/administração, mas não é esse o caso.

Acredito que os administradores fariam mais pelo prestígio de nossa profissão (sou administrador por formação e atuação) oferecendo soluções reais, concretas, aos inúmeros desafios que nossas organizações enfrentam, sejam elas públicas, privadas  ou ONGs. Diz o ditado que conselho e água benta só dá a quem pede, mas olhar para a qualidade dos dezenas de milhares profissionais que se formam a cada ano, nos milhares de cursos de graduação que se multiplicam pelo país a fora, também seria uma boa forma de valorizar a profissão.

Antes que eu esqueça, a jabuticabeira é uma árvore linda, única, que exala um perfume gostoso e nos oferece frutos deliciosos, que se espalham de forma inusitada por todo seu tronco. A jabuticaba não merece ser associada com questiúnculas menores, mesquinhas mesmo, como esta do PLS 439/2015. Quanto ao projeto de lei, só nos resta uma saída: vamos à luta contra mais esta aberração! Cansa, é chato, mas não tem jeito.

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