Eduardo Salles

Agronomia

Eduardo Salles é engenheiro agrônomo e mestre em engenharia agrícola pela Universidade Federal de Viçosa, ex-secretário de agricultura da Bahia e ex-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Agricultura (Conseagri). Foi presidente da Associação de Produtores de Café da Bahia e também da Câmara de Comércio Brasil/Portugal e é, há 14 anos, diretor da Associação Comercial da Bahia. Ele escreve neste Política Livre quinzenalmente, às quartas-feiras.

O Brasil precisa ser autosuficiente na produção de fertilizantes

O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, absorvendo 9% de toda a produção mundial. Ficamos atrás apenas do USA, da Índia e da China. A diferença é que os três primeiros são grandes produtores do insumo, enquanto que nosso país precisa importar 85% do que é utilizado pela agropecuária nacional.

Apenas em 2021, importamos 43 milhões de toneladas de fertilizantes. As cadeias de soja, milho e cana de açúcar consumiram 73% deste total. A dependência brasileira do mercado internacional já é conhecida, e a instabilidade causada pela invasão da Rússia ao território ucraniano trouxe o assunto à pauta novamente porque a agropecuária responde por cerca de 26% do PIB.

Quase metade do potássio consumido por nossas lavouras é comprado da Rússia e da Belarus. O país comandado por Vladimir Putin responde pela produção de 10% dos nitrogenados, 7% dos fosfatados e 20% dos potássicos no mundo, conforme a FGV (Fundação Getúlio Vargas). Com relação ao potássio e fósforo, o Brasil possui apenas 3% das reservas mundiais.

Mesmo antes do início da guerra, fatores como o aumento da energia, a crise no transporte marítimo e sanções econômicas impostas a alguns países são responsáveis pelo alto custo dos fertilizantes na produção nacional, o que impacta o preço dos alimentos na mesa dos brasileiros.

Como muitos assuntos no Brasil, as providências só são tomadas quando há uma emergência. E está na hora de entender que a agropecuária nacional precisa ser uma das prioridades estratégicas da economia e começarmos a diminuir essa dependência do mercado internacional. Talvez não seja possível fazer a curto prazo, mas é necessário começar imediatamente a planejar o futuro.

No último dia 11 de março foi lançado pelo governo federal o PNF (Plano Nacional de Fertilizantes), que tem como meta diminuir a dependência da importação em 2050 para 45% do total consumido na agropecuária brasileira.

Retomar a produção de adubos nitrogenados no país, por meio de investimentos da Petrobras em plantas paradas, já que as de Sergipe e da Bahia foram concedidas à iniciativa privada, é fundamental para diminuir a dependência nacional.

Outro ponto que pode ser atacado, e consta no PNF, é aproveitar as potencialidades nacionais. A EMBRAPA começou o Caravana Fert Brasil, que consiste na visita de técnicos às regiões produtoras para orientar a melhor utilização dos fertilizantes, aumentando sua eficiência.

Outro pilar é a estruturação da cadeia produtiva para a utilização de biofertilizantes. Desde 2019 a EMBRAPA colocou no mercado o BiomaPhos, que são duas bactérias que aplicadas ao solo deixam o fósforo mais disponível às plantas.

Combinar os fertilizantes minerais importados com os orgânicos, como esterco bovino, suíno e de aves, e utilizar os remineralizadores, como o pó de rocha, são outras opções que teremos que aplicar no país.

Não há, a curto prazo, uma saída para retirar nossa dependência, o que torna ainda mais urgente a necessidade de tratar o tema com a urgência necessária para nos próximos anos termos a segurança que a agropecuária nacional vá sofrer com a falta do insumo, colocando em risco milhões de empregos e a elevação do preço da alimentação no mercado interno.

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