Eduardo Salles

Agronomia

Eduardo Salles é engenheiro agrônomo e mestre em engenharia agrícola pela Universidade Federal de Viçosa, ex-secretário de agricultura da Bahia e ex-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Agricultura (Conseagri). Foi presidente da Associação de Produtores de Café da Bahia e também da Câmara de Comércio Brasil/Portugal e é, há 14 anos, diretor da Associação Comercial da Bahia. Ele escreve neste Política Livre quinzenalmente, às quartas-feiras.

O fator China

Iniciamos 2020 sob o medo da disseminação do coronavírus. Há relatos de infectados em diversos locais do mundo. No Brasil alguns casos suspeitos já foram descartados e outros ainda estão em análise, informa o Ministério da Saúde. Além da preocupação relativa à saúde de mais de 200 milhões de brasileiros, a epidemia pode atrapalhar a economia, que começava a apresentar pequenos sinais de recuperação.

A instabilidade das bolsas asiáticas é uma amostra do quanto o coronavírus pode ser prejudicial à economia mundial, principalmente a países exportadores de matéria-prima, como é o caso do Brasil.

Os principais produtos exportados em 2019 pelo Brasil, conforme o Ministério da Economia, foram soja (grãos), petróleo bruto, minério de ferro, celulose, milho (grãos), carne bovina, carne de frango, café (grãos), açúcar (bruto) e semimanufaturados de ferro e aço.

Segundo o Ministério da Economia, o Brasil exportou US$ 224,018 bilhões em 2019 e a China foi responsável por comprar US$ 65.389 bilhões. Em segundo lugar está o USA, com US$ 10,1 bilhões.

Para efeito de comparação, a peste suína africana, responsável pela perda de metade do rebanho suíno chinês, ocasionou em 2019 uma redução de US$ 6,7 bilhões nas exportações de soja do Brasil para a China.

Ainda não há como prever o tamanho do impacto, mas sabemos que qualquer retração do mercado chinês é um sinal amarelo que acende na economia global. O país asiático é o segundo maior importador do mundo e no ano passado registrou PIB de 6,1%, o menor em 29 anos.

No setor agropecuário, a curto prazo não parece existir risco de diminuir a demanda chinesa, mas, caso a epidemia prossiga e mantenha a paralisia em diversas cidades do país, causando a diminuição do poder de compra dos chineses, é possível que o Brasil exporte menos ao país asiático.

O mercado de soja, por exemplo, trabalha com contratos de seis a oito meses e garante a demanda durante esse período, mas a incerteza do futuro causa apreensão.

No setor de carnes, que ano passado exportou mais à China, aumentando o preço no Brasil, a expectativa é que ocorra a diminuição no embarque do produto, mas nada que a curto prazo crie impactos significativos.

Some ao coronavírus a decisão do governo chinês de reduzir à metade as taxas alfandegárias impostas aos produtos do USA, o que vai fazer com que as importações brasileiras tenham seu custo elevado, em preço relativo. Aves e soja estão no acordo entre chineses e americanos.

As notícias ruins na área da saúde mundial não param no coronavírus. No início de fevereiro o governo chinês relatou um surto de gripe aviária. A doença é altamente contagiosa entre animais e milhares já precisaram ser abatidos.

É óbvio que a China vai seguir com a necessidade de importar alimentos para suprir a demanda de mais de um bilhão de habitantes, mas a queda econômica, problemas no transporte imposto por barreiras de contenção ao coronavírus e a diminuição da demanda interna chinesa podem criar dificuldades à agropecuária nacional em médio e longo prazo.

Vale ressaltar ainda que a agropecuária não é uma ilha, e, assim como outros setores, necessita de insumos, como produtos tecnológicos, que podem sofrer aumento em virtude da instabilidade do mercado mundial, aumentando o custo de produção no Brasil.

Independente da extensão temporal do coronavírus, a agropecuária nacional vai precisar que o poder público atue com prudência diplomática, planejamento estratégico e eficácia sanitária para que possamos seguir como um setor que gera milhões de empregos e divisas ao país.

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