Eduardo Salles

Agronomia

Eduardo Salles é engenheiro agrônomo e mestre em engenharia agrícola pela Universidade Federal de Viçosa, ex-secretário de agricultura da Bahia e ex-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Agricultura (Conseagri). Foi presidente da Associação de Produtores de Café da Bahia e também da Câmara de Comércio Brasil/Portugal e é, há 14 anos, diretor da Associação Comercial da Bahia. Ele escreve neste Política Livre quinzenalmente, às quartas-feiras.

Pacto pela agropecuária

Passaram-se mais de seis meses desde as manifestações ocorridas no Brasil, em junho do ano passado, mas os gritos das ruas ainda ecoam. Brasileiros e brasileiras de todas as idades demonstraram a maturidade democrática do País, através de uma mobilização nacional autêntica e apartidária, clamando contra a corrupção, exigindo saúde, educação, mobilidade urbana e segurança pública, dentre outros serviços básicos. Queriam e querem que os impostos pagos retornem na forma de serviços públicos de qualidade.

As pautas levantadas pelo movimento são relevantes, mas chamo a atenção para o fato de que são os sintomas de uma grave doença que assola o nosso País há muitas décadas. É como se fosse uma intensa dor de cabeça. Para combatê-la, temos que descobrir o que a causa.

O movimento foi basicamente urbano, com base nas grandes cidades. Mas, como tenho uma vida inteira dedicada ao campo, coloco na mesa o que considero uma das origens deste problema. O exôdo rural.

Sonhando com melhores condições de vida, fugindo do sofrimento causado pelas secas, ou movido pela ilusão de que a cidade grande é um paraíso e sem ter como permanecer no campo, milhares de baianos deixam para trás o pouco que construíram com sacrifícios no interior do Estado e migram com a família para as capitais.

Ao chegarem aos centros urbanos, o que encontram? Desemprego e falta de moradia. Engrossam então a massa de desempregados e vão morar na periferia. Seus filhos, que tinham liberdade na zona rural, acabam entrando em contato com a marginalidade, o que pode levá-los a caminhos tortuosos como o das drogas, da prostituição infantil e da delinqüência.

É essa pressão do exôdo rural que incha as grandes cidades e aumenta sensivelmente a demanda por serviços públicos.

Precisamos ouvir os gritos quem vem do campo. Olhar com mais cuidado e carinho para a zona rural. Valorizar o agricultor, responsável pela comida que chega às nossas mesas.

Tenho certeza de que se houvessem boas condições de saúde, de educação, de habitação, se os serviços básicos nas cidades do interior fossem eficientes, se déssemos o apoio devido e valorizássemos o homem do campo, reduziríamos o exôdo rural.

É hora de efetivarmos um pacto pela agropecuária do País para que possamos ter a garantia do fornecimento do alimento, mas, acima de tudo, a garantia da permanência do homem no campo com qualidade de vida, dignidade e sustentabilidade.

A Bahia tem área de 56 milhões de hectares, mais de 60% dos quais localizados na região semiárida. Possui a maior população rural do País e o maior número de agricultores familiares do Brasil. Produz tudo que se possa imaginar. Precisamos agroindustrializar a produção, implantar agroindústrias para gerar emprego e renda e dar novas oportunidades aos jovens.

Nos três anos e meio que fiquei à frente da Secretaria Estadual da Agricultura, eu e a minha equipe nos esforçamos, com o apoio do governador, mas tudo isso sempre será pouco, pois os recursos são escassos e a estruturação definitiva do setor demanda uma força tarefa com recursos oriundos do pré-sal ou de outras fontes constantes e definitivas, que permitam nas próximas décadas investimentos decisivos que realmente cumpram o papel de fixação do homem no campo e contribua para a melhor qualificação social do País.

Vamos lutar por isso. A Bahia e o Brasil são grandes celeiros de produção de alimentos e precisam de um pacto pela agropecuária, para que tanto o campo como as cidades vivam em paz.

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