Elias de Oliveira Sampaio

Políticas Públicas

Nascido em Salvador, possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Católica do Salvador, mestrado em Economia e doutorado em Administração pela Universidade Federal da Bahia. Desde 1995 é economista do Governo Federal tendo exercido suas funções na Sudene (até 2001), no Ministério do Planejamento (2001 - 2018) e, a partir de janeiro de 2019, no Ministério da Economia. Foi Secretário Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) e Diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia (Prodeb), Subsecretário Municipal da Secretaria da Reparação de Salvador (Semur), professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), professor visitante do Mestrado em Políticas Públicas, Gestão do Conhecimento e Desenvolvimento Regional da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Professor, coorde nador do Curso de Ciências Econômicas e de Pesquisa e Pós-Graduação do Instituto de Educação Superior Unyahna de Salvador e de outras instituições de ensino superior na Bahia e em Pernambuco. Autor de diversos trabalhos acadêmicos e científicos, dentre eles o livro Política, Economia e Questões Raciais publicado (2017) e Dialogando com Celso Furtado (2019), também é Pesquisador Visitante do Departamento de Planejamento Urbano da Luskin Escola de Negócios Públicos da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).

A emenda pode sair pior do que o soneto!

A iminente decisão do Partido dos Trabalhadores em entregar a Policial Militar, Major Denice Santiago, a cabeça de chapa na disputa das eleições para a Prefeitura de Salvador é um movimento arriscadíssimo para o momento que vive a agremiação. A outsider e não petista, criadora e comandante da importante e respeitadíssima Ronda Maria da Penha é uma indicação direta do governador Rui Costa e a sua “petização”, está sendo construído de acordo com aquilo que alguns dos militantes da Estrela Vermelha entendem por ser a essência de sua democracia interna. Mas, há controvérsias…

Nada se ouve, ou se reflete sobre o fato de que a “solução Major Denice” – mulher, negra, trabalhadora e da periferia – representa um verdadeiro “Aú” dado pela cúpula do partido que transmutou da defesa do nome de um homem branco, rico empresário e de sobrenome italiano para a Militar. Porque será? Fato é que a aposta agora é na Major Denice e dada a sua condição socioeconômica e étnica, boa parte dos setores do PT já estão abraçando a ideia de forma acrítica, num movimento açodado e extemporâneo, através de adesões naturais e “sobrenaturais”, numa velocidade impressionante.

Do ponto de vista interno, nada disso é muito diferente de alguns comportamentos de manada que caracterizaram situações recentes no partido, a naturalização da discutível escolha de Dilma Roussef para conduzir o legado de Lula, político popular mais importante da história do país e que entregaria a sua sucessora, um governo aprovado por mais de 80% da população, é bom exemplo disto. O resultado, sabe-se hoje, com ou sem a narrativa de golpe, é que o governo Dilma não resistiu ao início de um segundo mandato conquistado nas urnas, a ferro, fogo e a tremenda força de Lula e do Partido dos Trabalhadores, mas sem a mínima sustentabilidade política. Após o seu impedimento, a presidenta, em si, passou a ser um “peso morto” justamente numa fase em cada militante era fundamental para fazer a diferença, num momento crucial de inflexão da chamada grande política no nosso país e os resultados deletérios de tudo isso estamos sofrendo até os dias de hoje e nada, absolutamente nada, nos garante que essa realidade, em nível nacional, será alterada no médio prazo.

Essa pequena digressão se faz necessária para lembrar que antes da invenção de Dilma, havia no próprio PT figuras de mulheres politicamente muito mais preparadas, lideranças importantes, gestoras, testadas nas urnas e de indiscutível fidelidade ao PT e especialmente a Lula. Ou seja, ao criar Dilma Roussef, Lula e o PT simplesmente deixaram de considerar que Marta Suplicy, Marina Silva e Benedita da Silva, eram tanto mulheres, quanto gestoras como a recém petista ungida pelo presidente, mas que diversamente dela, essas três últimas já tinham exercido cargos eletivos das mais diversas ordens e suas respectivas lideranças dentro do PT foram construídas a partir de suas performances políticas e sociais, por anos e anos a fio, na base social do Partido dos Trabalhadores.
Portanto, honestamente, o que há de se profundamente refletir é qual o valor político, gerencial e partidário que a “solução Major Denice” irá agregar a luta mais substantiva do PT e seus aliados de esquerda, no curto e médio prazo?

Esta não é uma questão de retorica, e muito menos uma situação banal que possa ser facilmente justificada por qualquer narrativa, mesmo que seja elaborada ou reproduzida pelos doutrinados e disciplinados militantes de carteirinhas ou, o que melhor ilustra essa nova “fauna de revolucionários” da fase governamental dos partidos de esquerda, de crachaszinhos com brasões dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Isto é, o que está levando, de fato, as pessoas que são responsáveis para presidir e dirigir o complexo debate sobre a disputa real de poder numa cidade como Salvador, a tomarem uma decisão tão heterodoxa, a essa altura de um momento político-eleitoral onde o adversário a ser batido já se encontra mais politicamente organizado e a braçadas de distância no corpo a corpo com a cidade?

Recorrer ao sucesso e o simbolismo da Ronda Maria da Penha não é um argumento suficientemente robusto para toda essa empreitada. Especialmente, porque a mesma farda que tem feito da Major Denice um símbolo da luta das mulheres e dos direitos humanos na sua corporação e na sociedade, também tem inexoravelmente ilustrado aquilo que o movimento negro tem denunciado como braço institucional do genocídio da juventude negra por décadas, a exemplo do que foi brilhantemente discutido pela também pré-candidata do PT, Vilma Reis, em sua Dissertação de Mestrado “Atucaiados pelo Estado: As políticas de segurança pública implementadas nos bairros populares de Salvador”, corajosamente defendida na FFCH/UFBA, em 2005, ainda na época da “malvadeza” e dois longos anos antes da gestão de Jaques Wagner, frise-se.

Ou, seriam as famosas pesquisas qualitativas, citadas aqui e ali como motivo mais imediato para uma manobra tão arriscada? Pessoalmente, tenho grandes dificuldades em acreditar nesses dispositivos como ponto de decisão estratégica de um agrupamento que possui toda a máquina do governo estadual e vários tipos de canetas azuis à disposição para “ erguer e destruir aquilo que mais lhes interessam”. Ademais, em se tratando da Bahia, essa narrativa não se sustenta por mais do que cinco segundos, após os discursos de quem quer seja. Com efeito, não custa lembrar que as vitorias de Jaques Wagner e do próprio Rui Costa em 2006 e 2014, respectivamente, são exemplos emblemáticos de que pelas bandas de cá, mesmo quando bastante torturados, os indicadores estatísticos da moda não costumam falar muito a verdade, mesmo quando lhe são forçadamente perguntados.

Para além de tudo isso, há algo que considero muito mais grave. Percebe-se nitidamente que a intempestiva indicação da Major está também ancorada numa tentativa ávida de se apropriar da ideia força da Campanha Eu quero Ela da Bancada do Feijão que, exitosamente, reorientou os discursos políticos da campanha eleitoral de Salvador, daqui para frente. Ora, antes de se tentar forçar a barra com o nome da Policial Militar junto à Campanha, é preciso deixar explícito para além do PTverso, quais são os verdadeiros motivos para o descarte das legitimas pretensões de Vilma Reis e Fábya Reis pelo próprio PT e mesmo de Olivia Santana que, de longe, é a mulher negra do ambiente político institucional que possui além das credenciais de gênero e origem socioeconômica que todas as outras, ativos políticos, eleitorais e de gestão testados nas urnas e construídos em décadas de vida pública, situação que a Major, por exemplo, mesmo que seja exitosa ao fim de todo este processo, não disporá de tempo físico suficiente para alcançar o mesmo backgroud da Deputada comunista.

Nesse contexto, e para o bem da verdade, o que deve ser ainda fortemente registrado é que o nome da Policial Militar Major Denice Santiago jamais foi sequer citado como uma possiblidade de seu enquadramento no perfil perseguido pela Campanha Eu Quero Ela. Mais do isto, até os chamados negros de direita e extremamente controversos para os debates das relações raciais no Brasil, como os de Irmão Lazaro e Pastor Sargento Isidorio, sempre foram lembrados no debate, mas não como uma opção a ser defendida pela campanha, e sim, sobretudo, como ameaças que oportunisticamente poderiam ser “jogados no colo” da Bancada de forma perigosa, ilegítima e acima de tudo, para se apropriar de um dos processos recentes mais exitosos luta política eleitoral do povo negro na cidade de Salvador.
Isto é, para o bem ou para o mal, a novíssima quase-petista só está adentrando nesse jogo, aos 45 minutos do segundo tempo, por obra e graça do governador Rui Costa.

Portanto, longe de desqualificar a criadora e comandante da importantíssima Ronda Maria da Penha, o ponto nevrálgico de todo esse debate é deixar publicizado que o espirito das resenhas das terças à noite no Pelourinho, no Restaurante de Dona Alaíde, nunca se permitiu a tutela de quaisquer pessoas ou movimentos que nos rememorem momentos pouco louváveis ou vergonhosos da história de nosso país e, sendo assim, associar uma solução política que interessa mais imediatamente apenas a organização política eleitoral do PT em 2020, de cima para baixo, pode representar um golpe de morte sobre uma iniciativa que está fazendo toda a diferença para a grande política nacional, exatamente por ser pluripartidária, socialmente diversificada e extremamente responsável do ponto de vista das relações raciais.

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