Jacó Lula da Silva

Economia

Mario Augusto de Almeida Neto (Jacó) é técnico em agroecologia. Nascido em Jacobina, aos 17 mudou-se para Irecê, onde fundou e coordenou o Centro de Assessoria do Assuruá (CAA) e a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). Como deputado estadual (2019-2022), defende as bandeiras do semiárido baiano, agricultura rural e movimentos sociais. Ao assumir a cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia, incorporou o "Lula da Silva" ao seu nome, por reconhecer no ex-presidente o maior líder popular do País. Na Alba, é vice-líder do PT e membro titular das Comissões de Saúde e Saneamento, Defesa do Consumidor e Relações de Trabalho, Agricultura e Política Rural, e Promoção da Igualdade.

*O mundo, a solidariedade e a crise do coronavírus*

A última vez que falei sobre a situação mundial, em fevereiro, estava na tribuna da Assembleia Legislativa. A crise do coronavírus, o impacto que causou no sistema capitalista e em nossas sociedades, faz com que eu me posicione novamente, agora através de meio virtual.

O ano de 2020 será sempre lembrado pela profunda mudança que provocou em todo o mundo. Um novo vírus, que se espalhou com enorme velocidade, nos fez entender como são frágeis as sociedades capitalistas modernas, que vêm sofrendo pragas semelhantes no novo milênio, e como são desiguais os avanços científicos e tecnológicos, tanto no seu uso, quanto na sua produção. O andamento desta calamidade mundial traz também outra convicção, a de que o maior patrimônio humano é a vida, e que, consequentemente, a saúde é determinante em sentido estrito, a exemplo da educação, moradia e trabalho. Estes bens foram dilapidados por décadas de neoliberalismo que nos deixaram expostos.

Do ponto de vista da saúde pública, fomos entregues às grandes corporações privadas, nas áreas de medicina, indústria farmacêutica, fabricantes de equipamentos, com seu pouco foco na medicina preventiva, e que acabaram nos deixando de calças curtas para combater uma crise sanitária globalizada.

Nesses longos dias em que estamos presos em nossas casas, obedecendo ao isolamento social necessário, tenho pensado no enorme impacto social e econômico que o vírus terá para as nossas sociedades e projetos de futuro. Diversos setores empresariais usufruíram de espetacular crescimento na última década. As transações bancárias alcançaram níveis fantásticos. Com o consumismo desenfreado o setor de serviços explodiu.

Parecia não haver limites para o comércio entre as nações. As viagens internacionais quase dobraram. Foi enorme o crescimento das redes de comunicação, companhias de transporte, hotéis, restaurantes e eventos culturais e esportivos.

Esta atitude se refletiu inclusive na política. Visando maximizar seus lucros, o capital internacional passou a apostar em grupos de extrema-direita, outrora marginalizados, obtendo seu “compromisso” com uma política econômica de corte ultraliberal. O gigantesco crescimento passou a ser acompanhado de pesadas restrições nos rendimentos dos trabalhadores e nos serviços sociais protetivos.

Esses mesmos agentes políticos neofascistas e neonazistas promoveram o maior fechamento de fronteiras desde a Segunda Grande Guerra. Estimularam a intolerância e a incivilidade, enfraquecendo a solidariedade social. E assim atacaram conquistas humanas imprescindíveis para enfrentar o atual período histórico. Nos EUA Trump cortou os financiamentos do Centro para o Controle de Doenças e desmantelou o Grupo de Trabalho sobre as pandemias no Conselho Nacional de Segurança, com a mesma orientação que levou ao corte de todos os fundos para investigação científica.

Este presidente ironizou o surgimento do coronavírus, no que foi seguido por líderes como Boris Johnson, recuando apenas sob pressão do número de mortes e da alteração nas pesquisas de opinião, Bolsonaro e poucos outros governantes de países sem protagonismo no cenário mundial. Na tradicional “caça às bruxas” para encontrar culpados, Trump deixou de pagar a Organização Mundial de Saúde (OMS). O presidente do Brasil usou política semelhante, atacando a ciência e a educação, retirando-lhes verbas essenciais.

Antes da entrada na crise o modo de acumulação de capital já estava em dificuldades. Que o digam as manifestações realizadas em nosso continente (Chile, Equador, Peru e Colômbia), questionando um modelo liberal cada vez mais apoiado no endividamento, jogatina financeira, criação de capital fictício e expansão da moeda.
Segundo a OMS, o epicentro da crise tende a se mudar para a América Latina ou África. Em pouco tempo de atrelamento aos norte-americanos, a atual hegemonia da Organização dos Estados Americanos se tornou sem serventia para os povos do continente.

Com a pandemia os mercados emergentes serão os mais atingidos. Até agora US$ 90 bilhões já foram retirados, é pior do que a crise de 2008. Como este modelo dominante pode absorver e sobreviver aos impactos do que pode vir pela frente? Vários segmentos desse tipo de acumulação de capital sofrerão bastante nos próximos anos. Os níveis de desemprego subiram para níveis superiores aos de 1930.

Estamos passando por uma tempestade econômica num mundo que já entrou em recessão. Em 2008 o crescimento chinês, junto com políticas de expansão, permitiu a saída da crise, mas desta vez, os EUA parecem perdidos nos devaneios de seu presidente, abrindo uma perspectiva de outra forma hegemônica mundial.

O modelo consumista do capitalismo contemporâneo é inoperante nas condições atuais. Precisou reduzir brutalmente a produção ao confrontar-se com a insuficiente circulação de mercadorias e serviços. A disparidade social que construiu complica a crise. Afinal, os pobres têm menos acesso à saúde, mais comorbidades e maior proximidade entre si nas comunidades populares.

Várias economias irão passar por problemas de liquidez. A resposta à atual crise depende em grande medida de quanto tempo durará a perturbação e que extensão atingirá. É preciso que o governo estimule o consumo de massas e a geração de empregos. É com mais Estado e não com menos Estado que poderemos avançar.

A recuperação promete ser complicada. Neonazistas e neofascistas preocupam-se mais com o retorno à economia dos grandes conglomerados do que com a saúde das pessoas. No fim do ano o Brasil terá a dívida pública alcançando 90% do PIB. Mas nem tudo está perdido. A crise pode fazer com que a humanidade se reinvente, rejeite o capitalismo neoliberal e adquira os anticorpus da tolerância e da solidariedade social.

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