Jacó Lula da Silva

Economia

Mario Augusto de Almeida Neto (Jacó) é técnico em agroecologia. Nascido em Jacobina, aos 17 mudou-se para Irecê, onde fundou e coordenou o Centro de Assessoria do Assuruá (CAA) e a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). Como deputado estadual (2019-2022), defende as bandeiras do semiárido baiano, agricultura rural e movimentos sociais. Ao assumir a cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia, incorporou o "Lula da Silva" ao seu nome, por reconhecer no ex-presidente o maior líder popular do País. Na Alba, é vice-líder do PT e membro titular das Comissões de Saúde e Saneamento, Defesa do Consumidor e Relações de Trabalho, Agricultura e Política Rural, e Promoção da Igualdade.

Sobre o golpe na Bolívia e a lógica da ação conservadora

Temos visto este ano toda sorte de ações deletérias promovidas por golpistas e conservadores contra a democracia no continente. Violência e repressão contra os manifestantes no Chile, Equador e Colômbia. Meses de tentativas de desestabilização institucional da Venezuela. Além disso, uma triste volta ao passado da Organização dos Estados Americanos (OEA), que em vez de fazer honra ao seu nome, tornou-se porta-voz dos interesses dos Estados Unidos da América.

Bastou, porém, que eleições populares na Argentina e na Bolívia mostrassem que a onda internacional da direita pode se esgotar para que o imperialismo voltasse a intervir no apoio às oligarquias locais. Há cerca de um mês, após a revelação das intenções de voto dos argentinos, muito dinheiro foi despejado no país tentando reverter o quadro de derrota da direita ou fazer com que a correlação de forças pós-eleitoral tornasse o país difícil de governar.

O processo latino tem mostrado a lógica da ação conservadora. Eleições que não forem vencidas por muitos milhões de votos, como os casos da Bolívia e Venezuela, a exemplo do que ocorreu no Brasil em 2014, sofrerão acusações de fraude, e haverá uma santa aliança dos imperialistas com a grande mídia para desconhecê-las. Isso é totalmente diferente do que fazem os progressistas, que não questionaram a pequena diferença de votos no segundo turno das eleições no Uruguai.

As forças imperialistas e seus aliados têm chegado ao cúmulo de indicar autoproclamados presidentes interinos e “reconhecê-los”, como são exemplos o “presidente sem voto” Juan Guaidó na Venezuela e a senadora sem aprovação do Congresso boliviano Jeanine Anes Chaves. O que temos visto nesse processo é uma conjugação de forças onde se destacam o presidente Trump dos Estados Unidos, a autodenominada OEA, merecendo ainda serem apuradas as denúncias existentes contra o presidente Bolsonaro que, se confirmadas, jogarão por terra toda uma trajetória do Itamaraty servir como contrapeso a ditaduras e intervencionismo no continente.

O caso da Bolívia mostra que nada podemos esperar da direita no continente. Durante a campanha eleitoral, o candidato da direita Carlos Mesa utilizou os mesmos recursos digitais utilizados por Jair Bolsonaro nas eleições brasileiras. Derrotados no pleito e com o governo de Evo Morales admitindo as iniciativas recomendadas pela comunidade internacional para que não pairasse a menor dúvida sobre os resultados, Mesa, Camacho e seus apoiadores investiram durante semanas na desestabilização institucional, utilizando, inclusive, os milicianos pagos a “trinta dólares por dia”, como na crise da Venezuela.

Mesmo uma comissão de auditoria eleitoral, coordenada pela OEA, não deteve as oligarquias separatistas sediadas na “Média Luna”, região que concentra os departamentos de população não indígena, e que operaram com sinal verde do imperialismo. Autoridades, organizações indígenas e militantes das causas populares foram agredidos, tiveram suas casas e sedes queimadas e suas mulheres e famílias ameaçadas de estupro. Uma estranha greve política da polícia pediu a renúncia presidencial. A OEA, que havia se comprometido a entregar seu relatório após a apuração total da eleição, aproveitou a ocasião para divulgar um “relatório preliminar” alegando “fraudes”. O golpe se completou com a “sugestão” feita pelo comandante das Forças Armadas para a renúncia do presidente Evo Morales.

Compreendendo que a direita queria criar um clima de guerra civil, o presidente Evo Morales, seu vice Garcia Linera, as principais autoridades do governo central, e até alguns governadores renunciaram, deixando o caminho livre para a pacificação da Bolívia. Isto, porém, mais uma vez, não fez parar os golpistas, que prosseguiram com sua política de “terra arrasada”, visando eliminar os senadores e deputados de esquerda e preparando, como foi denunciado pelo lingüista norte-americano Noam Chomsky, o Plano B da CIA, a eliminação de Evo Morales. Seu objetivo é que os indígenas nunca mais pudessem aspirar o poder na Bolívia.

A ação foi, porém, frustrada pela ação enérgica de dois presidentes, Lopes Obrador do México e Alberto Fernandes da Argentina, que tomaram a iniciativa de garantir o exílio de Morales e seu vice para aquele país da América Central. De onde por certo, como afirmou em mensagem, voltará com mais força e energia. Quanto ao povo indígena, democrático e popular da Bolívia continua resistindo contra os usurpadores que querem fazer retornar o país ao passado de exploração e submissão, mesmo em meio a decretos de exceção aprovados pela autoproclamada presidente interina Jeanina Anez, à revelia do Congresso Nacional.

O cenário atual é confuso. O projeto imperialista era impedir que parlamentares e governadores do MAS – Movimento Ao Socialismo (maioria) não exercessem seus mandatos. Mas, contraditoriamente, Jeanine Chaves teve que convocar novas eleições para que pudesse se contrapor ao discurso de golpe. Não temos ilusão das manobras que tentarão a todo custo fraudar as novas eleições. Mas confiamos que o povo da Bolívia conseguirá vencer mais esta batalha.

Este deputado exige que o Itamaraty informe as ações do governo brasileiro durante o golpe na Bolívia sob pena de crime de responsabilidade, e que é, aliás, objeto de questionamento na Câmara dos Deputados. Pretendemos saber porque o líder da extrema direita boliviana Luís Fernando Camacho foi recebido pelo ministro de Relações Exteriores Ernesto Araújo.

Em áudio filtrado pelo jornal boliviano “El Periódico”, um interlocutor aliado àquele senhor revela o apoio “das igrejas evangélicas e do governo brasileiro” ao golpe, e fala de um suposto “homem de confiança de Jair Bolsonaro que assessora um candidato presidencial”. O áudio completa a fala do apoiador do golpe afirmando que “temos de nos organizar para falar de política nas igrejas, como já se faz há muito tempo no Brasil, que já tem deputados, prefeitos e até governadores da igreja (evangélica)”.

Este deputado se junta a todas as organizações nacionais e internacionais que repudiam o golpe ocorrido na Bolívia.

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