Morre Mãe Carmen, ialorixá do Terreiro do Gantois, aos 98 anos
Ela era filha de Mãe Menininha do Gantois e liderava há 23 anos um dos terreiros mais tradicionais do país
Por João Pedro Pitombo/Folhapress
26/12/2025 às 07:12
Atualizado em 26/12/2025 às 13:14
Foto: Divulgação/Terreiro do Gantois
Mãe Carmen
Morreu na madrugada desta sexta-feira (26) em Salvador Mãe Carmen Òṣàgyían, ialorixá do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, o Terreiro da Gantois, e herdeira de uma linhagem que pavimentou a história do candomblé no Brasil.
Ela tinha 98 anos e estava internada no Hospital Português, em Salvador. A causa da morte não foi informada.
Mãe Carmen liderava havia 23 anos o Terreiro da Gantois casa de origem iorubana em Salvador fundada em 1849. Era filha mais nova de Mãe Menininha do Gantois, célebre ialorixá que ajudou a difundir as religiões de matriz africana na segunda metade do século 20.
Assumiu a liderança do Terreiro do Gantois em 2002 após a morte da irmã, Mãe Cleusa, que comandava a Casa desde a morte de Mãe Menininha, em 1986. Era conhecida pelo perfil discreto e zelo com a comunidade.
"Mãe Carmen nasceu para o sagrado", disse em nota a Associação de São Jorge Ebé Oxóssi, ligada ao Terreiro do Gantois.
Nascida em Salvador, ela iniciada no candomblé aos 7 anos. Ela foi formada nos fundamentos, nos ritos e nos saberes do candomblé e teve uma infância marcada pela preparação espiritual: "Nada em seu caminho foi acaso, foi legado, destino, desígnio dos Orixás", informou a entidade.
Casou-se com José Zeno da Silva, com quem teve duas filhas. Era contadora e trabalhou no Tribunal de Contas do Estado. Em 2002, assumiu o trono do Gantois, dando continuidade à linhagem familiar.
Por seu trabalho de preservação das tradições do candomblé e manutenção de um diálogo inter-religioso, foi agraciada em 2010 com a "Medalha dos 5 Continentes ou da Diversidade Cultural". Em 2023, recebeu da Câmara Municipal de Salvador a Comenda Maria Quitéria, honraria concedida a mulheres que se destacam em suas atividades.
A Associação de São Jorge Ebé Oxóssi destacou sua liderança marcada pelo cuidado, dedicação, firmeza, sabedoria e continuidade de uma tradição ancestral.
"Mãe Carmen foi farol, colo, caminho e fortaleza. Sua palavra ensinava, seu silêncio acolhia, e seu fazer cotidiano era atravessado pela entrega, pelo respeito aos Orixás e pelo compromisso com a vida coletiva. Em seu corpo e em sua condução, a herança de Mãe Menininha permaneceu viva, pulsante e afirmada dia após dia", informou a entidade.
Em 2019, Mãe Carmen foi celebrada no disco "Obatalá: Uma homenagem à Mãe Carmen", gravado pelo Grupo Ofá —formado por Iuri Passos, Yomar Asogbá, José Maurício Bittencourt e Luciana Baraúna– e com participação de artistas como Gilberto Gil, Ivete Sangalo e Margareth Menezes. O disco traz 14 orikis, textos poéticos em reverência aos orixás, e mais três canções que exaltam a mãe de santo.
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), lamentou a morte da líder religiosa, prestou solidariedade à família e destacou a trajetória de Mãe Carmen.
"Sua condução do Terreiro do Gantois, um dos mais tradicionais do nosso estado, representa um pilar para o fortalecimento das religiosidades de matriz africana. É assim que Mãe Carmen será para sempre lembrada", afirmou.
O prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), também manifestou pesar pela morte da ialorixá e exaltou o seu legado de preservação da ancestralidade e de cuidado com as pessoas.
"Mãe Carmen seguirá como luz a guiar caminhos e a fortalecer nossa cidade, seguindo os passos de sua mãe. Meus sentimentos à família, aos filhos e filhas de santo e a toda a comunidade do Gantois."
Mãe Carmen deixa duas filhas, três netos e quatro bisnetos.
