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Operações letais não funcionam contra crime, diz presidente da comissão de direitos humanos
Operações letais não funcionam contra crime, diz presidente da comissão de direitos humanos
Ação policial mais letal da história do Brasil, ocorrida no final de outubro, deixou 122 mortos, sendo 5 deles policiais
Por Fernanda Mena/Folhapress
24/12/2025 às 17:00
Foto: Leonardo Ramirez/Divulgação
O presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, advogado mexicano José Luis Caballero Ochoa
No início de dezembro, integrantes da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) estiveram em Brasília e no Rio de Janeiro para observar as causas e consequências da ação policial mais letal da história do Brasil: a Operação Contenção, ocorrida em 28 de outubro de 2025 nos Complexos da Penha e do Alemão, com saldo de 122 mortos, entre eles, 5 policiais.
A CIDH é um órgão da OEA (Organização dos Estados Americanos) encarregado da promoção e proteção dos direitos humanos no continente americano. Criada em 1959, ela faz parte do Sistema Interamericano de proteção dos direitos humanos.
O presidente a CIDH, o mexicano José Luis Caballero Ochoa, contou ao jornal Folha de S.Paulo que a comissão esteve com autoridades nacionais e estaduais, do governador Claudio Castro ao Ministério Público, passando por autoridades financeiras, pesquisadores e pessoas das comunidades afetadas. E que elabora agora um relatório sobre a visita com recomendações para as três esferas do poder.
Para além dos sinais de abuso, tortura e até desaparecimentos relatados à comissão, Ochoa afirma que a operação expõe o que classifica como uma "estratégia nula" de enfrentamento ao crime organizado. Segundo ele, ações desse tipo privilegiam respostas imediatistas e de alta letalidade, concentradas em territórios pobres e racializados, gerando dividendos políticos de curto prazo sem produzir resultados sustentáveis em segurança pública.
O presidente da CIDH diz que, embora não se possa ignorar o poder bélico e financeiro das organizações criminosas, o Brasil falha ao não adotar uma estratégia mais ampla, que ataque a rota do dinheiro, das armas e a corrupção institucional. Para Ochoa, cujo mandato se encerra em 31 de dezembro de 2025, a repetição de incursões policiais como a Operação Contenção revela menos uma política estruturada e mais uma lógica de exceção que, além de violar direitos humanos, tende a perpetuar a violência que diz combater.
O que a Comissão descobriu sobre a Operação Contenção em sua visita oficial ao Brasil?
A comissão fez vários encontros com autoridades, pesquisadores e vítimas. E o que a comissão encontra é que houve uma incursão policial naquele dia que reflete uma estratégia nula para lidar com o tema da criminalidade organizada. Ela reflete o interesse de atuar com imediatez e a ideia de que, com incursões de polícia e repressão, serão resolvidos problemas de armamento e de grupos criminosos.
Quais são as características dessa estratégia que o sr. classifica como nulas?
São incursões que dão ênfase fundamental a jovens em situação de pobreza, com uma questão racial de fundo, sobre a qual a comissão já se manifestou. Assim, essas operações podem ser capitalizadas politicamente em sociedades como as nossas, na América Latina, que estão sedentas de resultados em matéria de segurança. A insegurança é uma preocupação muito grande. Daí que operações como esta são saudadas pela população e geram crédito político porque se pensa que elas podem dar resultados.
E elas não dão resultados?
Não há resultado a longo prazo. Mas há um crédito político das autoridades, que as tratam como algo aparentemente efetivo, sem haver melhoria no bem-estar da população. Então, também encontramos a outra face da moeda, que é a preocupação com o protagonismo do crime organizado. Eles têm armamento pesado, sofisticado, e há muito dinheiro aí atrás dessas organizações criminais. Não se pode escamotear essa ideia: havia armas também. E este fenômeno é cada vez mais crescente. Mas, com ele, encontramos a corrupção e a impunidade tanto na rota de chegada dessas armas quanto na presença do crime organizado nesses territórios.
Que estratégias seriam efetivas contra o crime organizado?
Há boas práticas. Mas o que vimos no Brasil é que não há uma estratégia mais ampla contra o crime organizado que não seja operações pequenas, grandes, lamentáveis. Nós escutamos autoridades financeiras por causa do tema de seguir a rota do dinheiro, mas não encontramos uma incidência efetiva deste tema nem a nível federal nem no governo do Rio de Janeiro. Não encontramos uma estratégia de coordenação entre as autoridades federais, estaduais e municipais nem a nível internacional para que as armas não cheguem ao território do Brasil, o que é uma falha na cooperação internacional.
Esses pontos já não foram abordados em decisões nacionais e internacionais sobre o Brasil?
Sim. A ADPF 635, emitida pelo Supremo Tribunal Federal, tem alcance e magnitude, e há vozes que dizem que ela produz mais criminalidade. Mas estamos entendendo que ela é uma maneira, ao contrário, de poder atender à problemática em uma perspectiva de maior amparo constitucional. Tanto a comissão, em nove comunicados recentes, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos, em um par ou mais de sentenças relativas ao tema, se pronunciaram sobre a necessidade de a atenção à segurança pública e a incursão da polícia estejam feitos sob parâmetros de direitos humanos. E elas denunciam a gravidade desse problema de reprimir e promover massacres em determinados territórios sob esses parâmetros de raça e de situação econômica e de padrões de criminalização de juventudes pobres racializadas.
Por que esses jovens são alvo?
Uma organização social muito desigual utiliza essas pessoas para evidenciar a criminalização, e isso a comissão falou muitas vezes com respeito ao Brasil. Porque o Brasil tem um racismo muito arraigado e, com base nesse racismo e nessa condição econômica, encontramos um patrão que coincide em uma quantidade altíssima de mortes. Mas as cabeças das organizações criminais e as cabeças ainda mais altas, que depois coincidem com espectros políticos e empresariais, seguem por aí.
No Brasil, pesquisas apontaram para um apoio majoritário da população à Operação Contenção. Como é possível respeitar os direitos humanos e combater o crime organizado ao mesmo tempo?
O argumento de que não se pode ter respeito aos direitos humanos e combate ao crime organizado é falacioso. O problema hoje é que ações contra o crime organizado em geral nem respeitam os direitos humanos nem são eficazes ou produzem resultados porque não há uma estratégia integral, que siga a rota do dinheiro e a rota das armas, que resolva o tema da corrupção e que integre todas as autoridades que devem estar envolvidas. Se o crime organizado penetra em todos os Estados, que estão estruturalmente armados, institucionalmente e juridicamente, é porque há permissividade.
Quais são as boas práticas nesse campo de respeito pelos direitos humanos durante o combate ao crime organizado que resultaram mais efetivas do que as incursões policiais?
As instituições têm de dialogar e manter sua independência para que façam o trabalho técnico de forma autônoma. Por exemplo, as instituições que fazem perícias científicas têm de estar em mãos de autoridades técnicas, dedicadas a elas sem incidência de decisões políticas. Essa é uma boa prática.
Como o governador Claudio Castro respondeu aos questionamentos da Comissão?
Eu perguntei ao governador de Rio de Janeiro quantas Operações Contenção seriam necessárias para acabar com a criminalidade? Se há uma estratégia, quantas mais? Mas não há [estratégia]. Então é um tema que responde a outra lógica. E isso é o que preocupa a Comissão Interamericana.
Mas o que ele disse?
Que tem estratégia e que irá apresentá-la. O resto, eu prefiro não falar.
