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Fictor, que tentou comprar Master, negociou fatia do BRB em 2024, mas dinheiro de Dubai não chegou
Fictor, que tentou comprar Master, negociou fatia do BRB em 2024, mas dinheiro de Dubai não chegou
Por Alvaro Gribel e Daniel Weterman/Estadão Conteúdo
06/02/2026 às 09:20
Foto: Rovena Rosa/Arquivo/Agência Brasil
Banco Master
Um mês antes de o Banco de Brasília (BRB) começar a comprar carteiras do Banco Master, o Grupo Fictor tentou adquirir um pedaço do banco do Distrito Federal por R$ 324,5 milhões, segundo documento ao qual o Estadão teve acesso. A operação, negociada em junho de 2024, fortaleceria o capital do BRB para que ele pudesse acelerar a compra de carteiras do Master.
O negócio, contudo, não foi concretizado porque a Fictor não conseguiu repatriar recursos que estavam em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A Fictor é a mesma empresa que fez uma proposta para comprar o Master junto a investidores árabes horas antes de o banqueiro Daniel Vorcaro ser preso pela Polícia Federal, no dia 17 de novembro do ano passado. Ele foi detido enquanto tentava embarcar justamente para Dubai, o que foi considerado pela PF como uma tentativa de fuga — o que ele nega.
Procurado, o BRB reforçou que encontrou “achados relevantes” na auditoria independente contratada pelo banco com o escritório Machado Meyer Advogados e suporte técnico da Kroll e enviou as informações à Polícia Federal e ao Banco Central.
“Prezando pela transparência e dever de colaboração com as autoridades competentes, a fim de confirmar eventuais atos ilícitos, o Banco BRB informa que entregou o relatório à Polícia Federal (PF), na última quinta-feira, 29/01/2026. O mesmo relatório também foi entregue na data de ontem, 02/02/2026, ao Banco Central”, disse a instituição.
A Fictor e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa não se manifestaram.
A informação é mais uma peça no quebra-cabeça envolvendo o Banco Master e mostra que a Fictor tentou participar de um aumento de capital do BRB como investidora âncora. A operação aumentaria o tamanho do banco estatal e daria fôlego para a compra de carteiras do Master.
Após a frustração da negociação com a Fictor, quem entrou para comprar as ações, por meio de fundos, foram Daniel Vorcaro, o ex-sócio do Master Maurício Quadrado e o fundador da Reag, João Carlos Mansur. A entrada desses três acionistas foi revelada pelo jornal Valor Econômico e confirmada pelo Estadão.
Com o aumento de capital, o BRB poderia se alavancar em uma relação que chegaria a até dez vezes, ou seja: para cada real novo que entrasse no banco público, ele poderia comprar até R$ 10 de carteiras de crédito do Master. Essas carteiras, compradas de julho a dezembro de 2024, são a primeira operação envolvendo o BRB e o Master.
A partir de janeiro de 2025, o Master iniciou outro negócio, com a venda de carteiras de terceiros, da empresa Tirreno, que foram consideradas fraudulentas pelo Banco Central e a Polícia Federal.
As informações, conforme o Estadão apurou, estão nas mãos da Polícia Federal. A PF abriu inquérito para investigar o Grupo Fictor, que fez uma oferta para comprar o Master em novembro do ano passado, e entrou, no último domingo, 1º, com pedido de recuperação judicial para duas de suas subsidiárias: a Fictor Holding e a Fictor Invest.
Uma auditoria externa contratada pelo BRB encontrou indícios de irregularidades da gestão anterior e enviou um relatório para a polícia, que apura se houve gestão temerária no banco do Distrito Federal durante as negociações com o Master.
Aumento de capital
Antes de fazer a oferta de aumento de capital no BRB, a Fictor já havia se tornado uma pequena acionista do banco estatal, tendo sido detentora de 2.916 ações (ordinárias e preferenciais) de maio de 2024 a março de 2025.
Essa pequena participação no BRB tinha como intuito permitir que o grupo subscrevesse ações, ou seja, pudesse comprar novos papéis sem que o banco precisasse fazer uma oferta pública, aberta a todos os investidores. A Fictor deixou o quadro acionário do BRB em abril de 2025.
As trocas de e-mails para discutir o negócio começaram no dia 27 de março de 2024. Em 26 de junho, a Fictor assinou um boletim de subscrição de ações do BRB no valor de R$ 324,5 milhões. Esse documento é assinado quando uma pessoa ou empresa se compromete a comprar novas ações que o banco vai emitir para levantar dinheiro. O BRB preparou um comunicado ao mercado informando a negociação, mas o fato relevante — como a comunicação é chamada — nunca foi publicado.
Valores ainda maiores foram discutidos, segundo os relatos em posse da PF. O presidente do BRB à época, Paulo Henrique Costa, teria afirmado a interlocutores a previsão de aportes da Fictor entre R$ 500 e R$ 750 milhões.
Ele teria manifestado a convicção de que o “pessoal do agro” — uma referência à empresa — realizaria um aporte relevante no banco brasiliense. A Fictor, no entanto, não teria concretizado a compra de ações porque não houve tempo hábil para fazer uma repatriação de recursos que estavam em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Investigadores da PF suspeitam que Master e Fictor façam parte de uma mesma organização criminosa, assim como a Tirreno e o grupo Reag. A Polícia Federal investiga todas as empresas.
A Fictor é um grupo de participações e gestão de empresas com foco na indústria alimentícia, em serviços financeiros e em infraestrutura. Ela foi fundada em 2007 como uma empresa de soluções tecnológicas.
Daniel Vorcaro afirmou à PF que tentou viabilizar a venda do Master à Fictor com a ajuda de investidores árabes. A operação, contudo, foi barrada pelo Banco Central, que determinou a liquidação do Master devido a suspeitas de fraudes na venda de R$ 12,2 bilhões em títulos falsos ao BRB.
