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Ataques de Israel matam quase 300 no Líbano; Irã ameaça trégua e situação em Hormuz é incerta
Ataques de Israel matam quase 300 no Líbano; Irã ameaça trégua e situação em Hormuz é incerta
Para Trump e Netanyahu, trégua não se aplica ao país árabe; Paquistão, mediador do acordo, nega afirmação
Por Manoella Smith/Folhapress
08/04/2026 às 19:45
Foto: Reuters
Explosão após um ataque israelense no Líbano
Horas após o anúncio do cessar-fogo na guerra contra o Irã, Israel ignorou parte da trégua e direcionou esforços militares ao Líbano. Segundo o premiê Binyamin Netanyahu, Tel Aviv lançou a maior ofensiva contra o país vizinho desde o início do conflito.
O saldo, segundo a Defesa Civil libanesa, é de pelo menos 254 mortos e mais de mil feridos. Teerã, por sua vez, ameaça abandonar o acordo da véspera caso os ataques ao território libanês não sejam interrompidos.
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, declarou esta quinta como um dia de luto nacional "pelos mártires e feridos dos ataques israelenses que tiveram como alvo centenas de civis inocentes e indefesos" e ordenou o fechamento dos órgãos públicos e o hasteamento das bandeiras a meio mastro.
O Líbano foi arrastado para o conflito após o grupo Hezbollah, aliado de Teerã, ter atacado o Estado judeu dias depois do início da guerra, em 28 de fevereiro. Israel revidou e hoje ocupa militarmente o sul do território.
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, afirmou que espera que o país seja incluído na trégua. Nas negociações, Teerã condicionou sua adesão ao fim dos ataques contra seus aliados na região. Inclusive, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que costurou o plano, afirmou que as partes haviam aceitado um cessar-fogo "em todos os lugares" onde há conflito.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por sua vez, disse que Beirute não faz parte do acordo. Seu vice, J. D. Vance, afirmou posteriormente que os EUA não haviam concordado com incluir o Líbano na trégua e declarou que "os iranianos precisam dar o próximo passo ou Trump tem opções para voltar à guerra". Ele ainda instou o regime do Irã a negociar "seriamente" e repetiu que "se eles [iranianos] quebrarem o acordo, verão sérias consequências".
"Se o Irã quiser que essa negociação seja rompida por um conflito no qual eles estão sendo esmagados no Líbano, que não tem nada a ver com eles, e que os EUA nunca disseram que fizesse parte do cessar-fogo, é uma escolha deles. Acreditamos que seria uma estupidez, mas é a escolha deles", afirmou Vance.
O vice-presidente americano, segundo a Casa Branca, vai liderar a comitiva americana na primeira negociação no sábado (11) em Islamabad, capital paquistanesa.
O Exército de Israel informou ter feito uma ofensiva contra cerca de cem alvos do Hezbollah em diversas regiões do Líbano, incluindo a capital Beirute, o Vale do Beqaa, no leste, e o território ao sul, descrevendo a operação como o "maior ataque" à infraestrutura do grupo desde o início da guerra.
A Defesa Civil do Líbano afirmou que 254 pessoas foram mortas, incluindo dezenas de profissionais de saúde, e que 1.165 ficaram feridas. A Presidência escreveu, em comunicado, que Israel cometeu um massacre. Já o premiê libanês pediu que países aliados ponham fim aos ataques israelenses.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, ligou para o comandante do Exército do Paquistão para denunciar o que considerou uma violação do acordo por parte de Israel.
Mais cedo nesta quarta, o embaixador do Irã nas Nações Unidas afirmou que Tel Aviv deveria respeitar o acordo e que qualquer ataque teria consequências. As Forças Armadas da República Islâmica também afirmaram que irão apoiar "as frentes de resistência" no Líbano, no Iêmen e no Iraque.
O Hezbollah afirmou que tem o direito de retaliar e solicitou que os moradores deslocados devido ao conflito evitem voltar para suas casas antes que um acordo de cessar-fogo com o Líbano seja anunciado.
O mesmo pedido foi feito pelo Exército do Líbano. O número de deslocamentos forçados ultrapassou a marca de um milhão de pessoas nesta semana, agravando o cenário de catástrofe humanitária no país.
A maioria dos ataques desta quarta ocorreu em áreas civis, segundo Tel Aviv. Horas antes da ofensiva, o Exército emitiu alertas para algumas áreas do sul de Beirute e do sul do Líbano. Nenhum aviso foi dado para o centro da capital, que também foi atingido.
O porta-voz das Forças Armadas de Israel, Avichay Adraee, afirmou que o Hezbollah teria se deslocado de seu reduto no sul de Beirute para regiões mais mistas da cidade. Imagens verificadas pela agência de notícias Reuters mostram explosões em prédios em áreas residenciais, além de edifícios em chamas.
Um dos ataques atingiu Corniche al-Mazraa, uma das principais vias da capital. Segundo relatos, o clima era de pânico nas ruas. Na cidade de Sidon, no sul libanês, prédios residenciais foram destruídos. Imagens da Reuters mostram dezenas de moradores e socorristas vasculhando os escombros.
O coordenador do Médicos Sem Fronteiras no Líbano, Christopher Stokes, disse que os ataques são inaceitáveis. Médicos da organização estão recebendo um grande fluxo de pacientes na capital. "Um paciente chegou ao hospital sem as duas pernas. A situação é caótica", afirmou.
Os bombardeios desta quarta ainda atingiram um prédio na região de Tiro, no sul do país, pouco depois da emissão de uma nova ordem de retirada de civis naquela área. A cidade de Nabatieh, no sul, também foi atacada.
Em pronunciamento, o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, afirmou que o cessar-fogo não incluirá o Hezbollah. Em relação ao Irã, disse que o urânio enriquecido será removido do país por "acordo ou pela força". E acrescentou que, mesmo durante a trégua, Tel Aviv mantém o "dedo no gatilho".
Diante da incerteza sobre a situação, alguns países se manifestaram. O governo brasileiro emitiu uma nota em que condena os ataques de Israel e reafirma "seu compromisso com a soberania e a integridade territorial do Líbano". O Itamaraty insta "Israel a suspender imediatamente suas ações militares e a retirar todas as suas forças do território libanês".
Espanha e França também pediram que a trégua inclua o Líbano. O ministro das Relações Exteriores espanhol, José Manuel Albares, disse em uma entrevista a uma rádio que é "inaceitável" que Israel mantenha os ataques contra o país vizinho.
A Organização das Nações Unidas (ONU) também condenou os bombardeios israelenses. Já o Irã prometeu retaliar após o que chamou de "massacre brutal" contra Beirute.
Além disso, neste primeiro dia de cessar-fogo, cercado por ameaças de suspensão da trégua, houve confusão acerca da volta do trânsito de petroleiros e outros navios pelo estreito de Hormuz. A agência iraniana Fars anunciou que petroleiros que haviam começado a transitar pela via por onde passavam 20% do óleo e gás do mundo foram parados, algo que virou um "fechamento" segundo a também estatal Press TV. Depois, a mídia estatal disse que o tráfego será "orientado pela Guarda Revolucionária" para evitar trechos minados do estreito, sugerindo alguma reabertura.
Já a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, apontou um aumento no tráfego —que, segundo monitores, era mínimo de todo modo. "Os relatos públicos são falsos", disse, afirmando que a realidade era outra.
Na terça, pouco antes de vencer seu ultimato ao país persa, Trump recuou novamente e aceitou a proposta feita pelo Paquistão para um cessar-fogo do conflito. Antes de aceitar o acordo, o americano ameaçou obliterar a infraestrutura civil do Irã e disse que "uma civilização inteira" morreria naquela noite.
Em postagem na rede Truth Social, Trump disse que sua decisão se baseou no compromisso de que o Irã reabra o estreito de Hormuz durante a trégua —Teerã disse que o fará por duas semanas "em coordenação com as Forças Armadas" iranianas.
O regime iraniano, por sua vez, confirmou que as negociações com os EUA acontecerão na capital paquistanesa, Islamabad, a partir da próxima sexta-feira (10). O país persa reforçou que as negociações não significam o fim imediato da guerra e que este acordo somente será aceito quando os detalhes do plano de dez pontos forem finalizados.
