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BC reforça área de fiscalização e revisa plano de integridade sob impacto do caso Master
BC reforça área de fiscalização e revisa plano de integridade sob impacto do caso Master
Por Nathalia Garcia/Folhapress
23/04/2026 às 12:30
Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil
Sede do Banco Central
A cúpula do Banco Central decidiu reforçar a área de supervisão ao alocar 25% dos servidores aprovados no último concurso público em departamentos que ficam sob o guarda-chuva da diretoria de Fiscalização, comandada pelo diretor Ailton de Aquino. A decisão reflete o trabalho que vem sendo feito pelo órgão para fortalecer o monitoramento de instituições reguladas após o caso Master.
O BC também está finalizando a revisão do seu plano de integridade, com diretrizes que orientam a conduta de seus funcionários. Segundo um interlocutor a par das discussões, a expectativa é que as mudanças de governança sejam divulgadas até o fim de maio.
A revisão do programa é prática periódica, mas o tema ganhou mais relevância após indícios de corrupção dos ex-gestores Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que, segundo investigações, foram cooptados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O caso pode resultar na expulsão deles do BC, se considerados culpados pela CGU (Controladoria-Geral da União). Eles também são alvo de investigação na esfera criminal.
Dos 160 funcionários recém-chegados ao BC via concurso, distribuídos no início do ano em 27 setores do órgão, 25% foram direcionados para departamentos da diretoria de Fiscalização.
No departamento de Supervisão Bancária, que esteve no centro da polêmica com o Master, houve a entrada de dez servidores –quase todos em 26 de janeiro. A chegada de reforços ocorreu na mesma semana que o então chefe do setor, Belline Santana, e o chefe-adjunto, Paulo Sérgio, deixaram de exercer função comissionada (equivalente a cargo de confiança).
A integração repôs mão de obra perdida pelo setor anteriormente. Na reta final de 2025, após a liquidação do Master, houve saída de funcionários, seja por aposentadoria, seja por transferência para outros setores.
No fim de janeiro, foram também alocados 13 novos funcionários no departamento de Gestão Estratégica e Supervisão Especializada, mais dez servidores no departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro e outros oito no departamento de Supervisão de Cooperativas e de Instituições Não Bancárias. Ao todo, foram 41 reforços.
Outra área correlata que também ganhou prioridade foi o departamento de Supervisão de Conduta, com a chegada de dez novos membros aprovados no concurso. O setor fica inserido na diretoria de Cidadania e Supervisão de Conduta, liderada por Izabela Correa.
Essa quantidade total só é menor do que o montante de 55 servidores alocados no departamento de Tecnologia da Informação. Neste caso, contudo, a distribuição das vagas já estava prevista no edital do concurso público realizado em 2024.
No ano passado, os ataques cibernéticos que resultaram em desvios milionários de recursos jogaram luz sobre brechas na segurança do sistema financeiro e na limitação de atuação do BC para evitar incidentes do tipo. No órgão, há o diagnóstico de que a falta de pessoal é um dos gargalos a serem enfrentados hoje.
Em paralelo ao reforço de funcionários, o BC discute ajustes para fortalecer sua governança de processos decisórios. Um dos pontos em discussão é a opção de limitar mandatos para quem ocupa posições de chefia.
Atualmente, não existe um prazo máximo de permanência para quem comanda um departamento, por exemplo. Alterações ficam a critério de escolhas individuais dos funcionários ou condicionadas à aposentadoria dos trabalhadores.
Também está em debate um rodízio dos funcionários que cuidam de cada instituição financeira. Mas, de acordo com um interlocutor que tem acompanhado as discussões, o tema deve ser tratado de forma mais genérica no novo plano de integridade.
As medidas são vistas dentro do BC como formas de reduzir o chamado "risco de captura", ou seja, o favorecimento de supervisores a instituições reguladas em decorrência de um longo período de convivência entre as partes.
Paulo Sérgio atuou como diretor de Fiscalização do BC entre 2017 e 2023. Meses depois, assumiu o posto de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária –liderado por Belline de 2019 a 2026.
Funcionários de carreira da instituição, com quase três décadas de casa, eles contavam com a confiança dos colegas. Como mostrou a Folha, o indício de envolvimento da dupla no caso Master gerou um clima de abatimento e perplexidade entre os funcionários.
Segundo investigações, os servidores do BC são suspeitos de terem atuado como consultores informais de Vorcaro em troca de vantagens indevidas. A evolução patrimonial dos ex-gestores foi o gatilho para a abertura de uma investigação interna no BC.
A sindicância patrimonial concluiu que Paulo Sérgio simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, para ocultar recebimento de propina. A defesa dele afirma que a venda da propriedade foi efetiva e não teve finalidade de mascarar qualquer vantagem indevida.
Outra conclusão da investigação do BC foi que Belline simulou dois contratos, no total de R$ 4 milhões, com um advogado ligado ao Master para esconder propina recebida. Segundo sua defesa, o servidor não adotou medidas que favorecessem o conglomerado.
Nas palavras do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o órgão viveu um processo de luto. Segundo ele, eventuais mudanças em procedimentos internos do órgão esbarram em limitações de recursos e de estrutura legal.
Publicamente, Galípolo vem defendendo tanto a aprovação do projeto de resolução bancária em tramitação no Congresso Nacional quanto a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que amplia a autonomia do BC sob o aspecto financeiro e orçamentário.
