Lucas Faillace Castelo Branco

Direito

Lucas Faillace Castelo Branco é advogado, mestre em Direito pela King’s College London (KCL), Universidade de Londres, e sócio de Castelo Lima Dourado Advogados. Estudou “Introduction to International Financial Law and Regulation” na London School of Economics (LSE) e frequentou o curso “International Banking and Finance Law” da Universidade de Zurique. É especialista em direito tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários (IBET).

Narrativas e interpretações

Deparei-me com frase intrigante do historiador francês François Guizot. Disse ele, que viveu no século XIX e foi primeiro-ministro da França: “Nada falsifica mais a história do que a lógica”.

Realmente, à falta de evidências empíricas, o historiador preenche a narrativa por meio de inferências lógicas cuja conclusão pode não guardar correspondência com o que de fato ocorreu. Narrativas podem ser coerentes, bem construídas, mas falsas. A lógica, ferramenta que auxilia o raciocínio correto, não se presta à determinação de verdades. Isso é tarefa, por exemplo, da ciência.

Quem narra, por outro lado, não se limita unicamente a descrever fatos. Interpreta-os também; empresta-lhes significados. Por isso, é preciso distinguir o que aconteceu, uma vez tendo as evidências empíricas, da interpretação que se faz dessas evidências, isto é, o seu significado.

Os significados encontram-se no campo valorativo e no universo simbólico de uma sociedade. Duas pessoas podem apertar as mãos e isso será o mesmo fato aqui ou no Uzbequistão. Porém, o que pode ser sinal de cumprimento em uma sociedade, pode ter significado diverso em outro (ou nenhum em especial).

Não é apenas o universo simbólico socialmente construído que fornece o arsenal de onde partem as interpretações. A mescla desse universo com experiências de vida, gostos e idiossincrasias pessoais são também elementos importantes. Eles multiplicam ainda mais as possibilidades de visões diferentes para a mesma situação da vida. Todos esses fatores fornecem uma moldura prévia que determina o resultado da interpretação.

Os recortes do testemunho também variam de pessoa para pessoa. Aquilo que chama a atenção de um pode ser irrelevante para outro. Em um jantar entre amigos, basta perguntar a eles o que acharam do encontro para se ouvirem respostas semelhantes e tantas outras distintas.

Daí que se diz que o documentário, ainda que desprovido de conteúdo opinativo, jamais é neutro, pois o que nele é retratado é reflexo das escolhas do documentarista, que acaba enfatizando certos aspectos da realidade.

Diverso é o uso político-ideológico das narrativas. Nesse caso, as interpretações dos fatos são feitas com o objetivo de minar a posição do adversário e promover a imagem do grupo político, com vistas à obtenção do poder. Aqui, não é necessário haver compromisso com os fatos, com a verdade nem com o razoável. Um exemplo é elucidativo.

Recentemente, o ministro Sérgio Moro deu entrevista ao programa Roda Viva. Julgando-se pelos comentários nas redes sociais, percebe-se que ele teve a proeza de ser genial e medíocre ao mesmo tempo. É claro que interpretações e opiniões divergentes acerca de um mesmo fato não implicam necessariamente recurso de estratégia política.

De qualquer modo, é sempre bom ter em mente a fragilidade das narrativas. Elas podem ser lógicas, mas desprovidas de evidências. Podem ser pautadas em evidências, porém passíveis de interpretações diversas. Também podem dar ênfase a certos aspectos da realidade, negligenciando outros.

E elas podem, ainda, se prestar ao uso político-ideológico, com a finalidade de promover os interesses de certo grupo social.

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